<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-3695782829192788861</id><updated>2011-05-16T19:07:19.428-07:00</updated><title type='text'>blog do joca</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://blogdojocaterron.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdojocaterron.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>blog do joca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06215457349160002805</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>22</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3695782829192788861.post-8306537087041909757</id><published>2007-08-20T07:41:00.000-07:00</published><updated>2007-08-20T07:59:23.268-07:00</updated><title type='text'>SAUDADES DO CAIRO?</title><content type='html'>Alguém aí sente saudades do Cairo? Pois eu não sinto. Abaixo segue um vídeo gravado a partir da janela de um hotel na Sharia Talaat Harb, ao lado do Cine Metro, o mais tradicional da cidade. O que pode ser visto é uma multidão troglodita "assediando" (temo que a palavra não seja a mais adequada para a situação) duas turistas ocidentais. Isso ocorre no centro comercial mais populoso do Cairo, a cerca de dois quarteirões daonde me hospedei durante toda minha estada egípcia. Assistam e tirem suas próprias conclusões.&lt;br /&gt;&lt;object width="425" height="350"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/B2SGamUeMec"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="wmode" value="transparent"&gt;&lt;/param&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/B2SGamUeMec" type="application/x-shockwave-flash" wmode="transparent" width="425" height="350"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3695782829192788861-8306537087041909757?l=blogdojocaterron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/8306537087041909757'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/8306537087041909757'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdojocaterron.blogspot.com/2007/08/saudades-do-cairo.html' title='SAUDADES DO CAIRO?'/><author><name>blog do joca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06215457349160002805</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3695782829192788861.post-2214829099696865300</id><published>2007-06-20T18:08:00.000-07:00</published><updated>2007-06-21T05:55:03.013-07:00</updated><title type='text'>MA’IS SALAAMA – A PARTIDA</title><content type='html'>&lt;a href="http://bp3.blogger.com/_NWaMHnGz07Y/RnpfJ0JkScI/AAAAAAAAAA8/c3hq1RWBqtU/s1600-h/Paris+dia+13+de+junho+078.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5078476152035887554" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://bp3.blogger.com/_NWaMHnGz07Y/RnpfJ0JkScI/AAAAAAAAAA8/c3hq1RWBqtU/s320/Paris+dia+13+de+junho+078.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;E, afinal, o trigésimo-primeiro dia chegou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordamos cedinho, pois o avião saía às 7h20. Nos despedimos do pessoal do Odeon. Deixei um &lt;i&gt;baqshish&lt;/i&gt; salvador pra rapaziada, além de um exemplar em português de “Miramar”, de Naguib Mahfuz, para o Wael, o professor de línguas. Que lindo. Que maravilhoso. O taxista que eles tinham arranjado nos esperava com seu Fiat 147 possante. Wael deve ter adorado aquele livro em português. “Mas que porra de língua é essa?”, deve ter pensado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de 31 dias convivendo com a hospitalidade egípcia, acho que terei pesadelos por muitos anos com a palavra “welcome”. Por onde quer que eu andasse no Cairo eu ouvia “welcome”. Eram crianças me seguindo e dizendo “welcome”. Comerciantes que diziam “welcome” à medida que eu passava. Mulheres com os rostos escondidos detrás dos &lt;i&gt;hegab&lt;/i&gt; fazendo reverências e murmurando “welcome” para mim. E até cabras balindo “béééélcome”. Era apavorante. Ao acordar pela manhã para ir comprar pão na El-Abd, bastava colocar o pé na calçada para a rua inteira deixar de fazer o que estava fazendo só para dizer “welcome”. Todo santo dia. O mesmo inferno. Em certa ocasião me escondi num beco de um bairro distante. Era uma rua de terra e não havia ninguém à vista, quando, do fundo de uma porta escura onde não era possível enxergar nada, saiu a voz trêmula de algum moribundo dizendo “welcome”. Pra mim chegava. Era o fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entramos no táxi, eu e a Egípcia do Crato. O avião faria escala em Paris, onde ficaríamos por mais 15 dias, nos recivilizando e nos amando no covil sensual da espiã sexy. Notamos, porém, logo na primeira fala, que o motorista não falava patavinas de inglês. “Tudo bem”, eu pensei, “aqui não tem mesmo outro aeroporto. Não pode ter erro”. E seguimos em frente. No primeiro minuto, o motorista acendeu um cigarro. No Cairo é assim: os taxistas fumam e oferecem um cigarro. “&lt;i&gt;La’, shukran&lt;/i&gt;”, eu disse, esbanjando meu árabe. Eram 4h30 da manhã, pombas. Ainda não era hora. E o Fiat 147 voava nas avenidas vazias. O taxista acelerava, acelerava e então aproveitava a banguela, até quase o carro morrer. Fazia isso e ria. Egípcios, nunca mais. E assim foi até o aeroporto, a 35km do centro da cidade. Acelerava, acelerava e banguela. Depois ria e acendia outro cigarro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegamos no aeroporto. Pelo que entendi, o taxista nunca havia pisado no lugar. Apontei a placa dizendo “Terminal 1 – embarques internacionais”. Não tinha erro. Quando lá chegamos, me despedi com alívio do taxista. Ele ofereceu um cigarro. Agradeci, desperdiçando meu árabe: “&lt;i&gt;La’, shukran&lt;/i&gt;”, eu disse. Ele foi embora e ficamos a não ver nada, eu e a Egípcia do Crato, nem navios, nem aviões e muito menos a plataforma de embarque. O egípcio sonolento do guichê de informações me informou, depois de três bocejos, que a placa estava errada, e a plataforma de embarque correta era no Terminal 2. “Mas é muito longe, não dá pra ir a pé. Espera o ônibus branco aí na frente. Em 10 minutos ele passa”, ele disse, bocejando mais uma vez. Nós ainda tínhamos algum tempo. Não estávamos totalmente atrasados, graças ao esquema “acelera, acelera e banguela” do taxista. Não tinha erro. Claro que não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meia hora depois e nada de ônibus. Àquela altura eu já pensava na revista Veja, no Reinaldo Aze(ve)do, nos leitores do TodoProsa e em todo o estafe do Cosmopolitan Hotel me amaldiçoando. Minha paranóia enfiou a manopla na cuíca: será que o taxista e o cara do guichê de informações eram apenas mais duas mirisolettes disfarçadas? Não podia ser. Com as tempestades que a Egípcia do Crato vinha promovendo em minha horta eu achava que aquela maldição já tinha sido levada pelo vento para outras plagas, quem sabe para Istambul ou Lisboa. “Paris não”, eu pensava, “de jeito nenhum.” Foi então que apareceu outro taxista. “&lt;i&gt;No bus&lt;/i&gt;”, ele dizia, “&lt;i&gt;taxi&lt;/i&gt;”, e apontava para o seu Fiat 147 caindo aos pedaços. Juro que eu não quis ser indelicado com ele. Mas não teve jeito. E como é bom poder latir uns palavrões nessa nossa língua que ninguém (nem mesmo a gente) entende. O cara saiu correndo, na medida em que seu Fiat 147 lhe permitia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nada do ônibus. Já devíamos ter nos apresentado ao check in fazia tempo e nem sinal do ônibus. Até que o motorista de uma outra linha se apiedou de nós e &lt;i&gt;deu uma carona até o lugar em que o ônibus correto aguardava&lt;/i&gt; sabe-se lá o quê. Uma bomba de Israel? O retorno de Cleópatra? “Egípcios nunca mais”, eu pensava. E enfim chegamos ao Terminal correto e, felizmente, ao final desta história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu poderia continuar e contar a vocês outras coisas mais e que o vôo do Cairo até Paris foi o pior de minha vida, graças ao aperto da poltrona e de uma luta formidável que eu travava com meu aparelho digestivo fazia uns 15 dias, vencida em parte devido à inestimável ajuda recebida das hostes do Faraó IMOSEC I, porém acho que este blog já cumpriu o seu intento de narrar minhas desventuras nas longínquas terras do país de &lt;i&gt;Misr&lt;/i&gt;. Agradeço a todos os que me acompanharam até aqui e os convido &lt;a href="http://www.hellhotel.blogger.com.br/"&gt;à minha casa&lt;/a&gt;, onde volto a postar a partir de julho. Prometo também colocar nesta página em breve um link com as fotos da viagem, assim que forem reveladas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto à “Maldição do Cosmopolitan Hotel” e ao amor propriamente dito, melhor encerrar com essa notável expressão retirada das histórias em quadrinhos e daqueles antigos seriados exibidos no cinema e que diz muito sobre as expectativas em torno desse sentimento incondicional:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[ TO BE CONTINUED / A SUIVRE ]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um grande abraço a todos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Joca Reiners Terron&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Paris, 21 de junho de 2007&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3695782829192788861-2214829099696865300?l=blogdojocaterron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/2214829099696865300'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/2214829099696865300'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdojocaterron.blogspot.com/2007/06/mais-salaama-partida.html' title='MA’IS SALAAMA – A PARTIDA'/><author><name>blog do joca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06215457349160002805</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://bp3.blogger.com/_NWaMHnGz07Y/RnpfJ0JkScI/AAAAAAAAAA8/c3hq1RWBqtU/s72-c/Paris+dia+13+de+junho+078.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3695782829192788861.post-249395580575669506</id><published>2007-06-18T04:27:00.001-07:00</published><updated>2007-06-20T16:25:31.082-07:00</updated><title type='text'>A MALDIÇÃO DO COSMOPOLITAN HOTEL VIII</title><content type='html'>&lt;a href="http://bp0.blogger.com/_NWaMHnGz07Y/RnZzkEJkSbI/AAAAAAAAAA0/aomFw86vqy8/s1600-h/Paris+dia+15+de+junho+019.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5077372693333166514" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; CURSOR: hand" alt="" src="http://bp0.blogger.com/_NWaMHnGz07Y/RnZzkEJkSbI/AAAAAAAAAA0/aomFw86vqy8/s320/Paris+dia+15+de+junho+019.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;O vento frio ao longo da avenida Champs Élysées despenteava plátanos e castanheiras sob a luz minguante do sol poente até culminar na Place de la Concorde, erguendo a lapela do casaco à altura de meu rosto como na tentativa de um beijo roubado. O súbito obstáculo soprado pela ventania tapou por breves instantes a figura da Egípcia do Crato recortada contra o sol e vinda em minha direção com seu passo largo e algo marcial, aprendido em alguma escola de espiãs sexys. Nós aproveitávamos a estada em Paris para visitar o obelisco trazido de Luxor no século XIX e instalado ali na praça, além de dar um tchauzinho para os amigos egípcios na forma de hieroglifos esculpidos no monumento (“Welcome, welcome”, diziam os gatos e as íbis em baixo-relevo no granito).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não esperava que aquele obelisco me contasse a história de amor que Tutankhamon e a Esfinge não foram capazes de contar, claro, mesmo porque eu já vivia a minha própria &lt;i&gt;love story&lt;/i&gt; e não precisava mais que ninguém me contasse porra nenhuma. Não posso negar minha surpresa, entretanto, ao enxergar inesperadas conotações amorosas e sexuais nos textos e desenhos dispostos no pedestal e que explicam a &lt;i&gt;halace, virement et &lt;b&gt;erection&lt;/b&gt; de l’obelisque par M. Lebas, ingénieur&lt;/i&gt; na Place de la Concorde. Afinal um monumento histórico egípcio me contava qualquer coisa que se relacionasse a esse montanhoso sentimento pleno de altos e baixos (e que às vezes até mesmo carece de auxílio técnico do departamento de engenharia), e tinha de ser um monumento em forma de &lt;i&gt;falo&lt;/i&gt;, sem dúvida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi relembrando a viagem que eu e a Egípcia do Crato fizemos a Luxor e observando aquela ereção gigantesca que ameaçava inundar o vizinho Jardin des Tuilleries que de novo comecei a digredir, tecendo considerações sobre a forma com que os egípcios se relacionam entre si e com os outros cidadãos deste planeta tão confuso. Há duas semanas atrás, no dia 3 de junho, eu e ela caminhávamos na Corniche El-Nil (o calçadão que margeia o Nilo e de idêntico nome ao do seu similar no Cairo) sob a luz atordoante do meio-dia no Vale do Nilo quando, a cerca de 15 metros de nós, um homem calmamente levantou a sua &lt;i&gt;gabbeyia&lt;/i&gt; (vocês já sabem, aquela túnica usada pelos egípcios) e começou a se masturbar. Ele estava sentado num dos diversos bancos dispostos na calçada e olhava para a Egípcia do Crato e para mim, nos homenageando ao vivo e em cores à medida que desfilávamos nossos corpinhos inspiradores diante de seus olhos apaixonados. De imediato meus brios de macho cristão civilizado me levaram a pensar se não seria o caso de um discreto corretivo no louco, mas acabei concluindo que, hum, bem, e se for &lt;i&gt;absolutamente comum&lt;/i&gt; uma coisa desse tipo acontecer no Egito? Sim, pois casos de estupros e masturbadores furtivos que “homenageiam” turistas em cemitérios ou em outros lugares menos inapropriados são relatados com absurda frequência em todos os guias de viagem, e mais ainda – e com maior riqueza de detalhes -- nos fóruns da internet. Acabei deixando pra lá (afinal, quem sou eu para corrigir o desejo de alguém, um Delegado da Bronha Alheia?) e seguindo caminho. Quando olhei para trás, o punheteiro já tinha deixado de olhar para a minha bunda e transferia toda a sua concentração manual e inspiracional às duas americanas de shortinho que vinham atrás de nós. Torço para que elas tenham conseguido se desviar dos perdigotos a tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A semana de intensa paixão que se iniciara no litoral de Alexandria, porém, e prosseguia ali, às margens espetaculares do Nilo em Luxor, já havia me fornecido suficiente &lt;i&gt;know how&lt;/i&gt; a respeito do impressionante interesse lúbrico dos homens egípcios em relação às ocidentais e também em relação &lt;i&gt;aos&lt;/i&gt; ocidentais, o que não chega a ser um escândalo para mim (dada a tradição de &lt;i&gt;turismo&lt;/i&gt; homossexual por aquelas bandas, que remonta a Alexandre, o Grande, chegando até William Burroughs e Paul Bowles). O fato é que pode ser um verdadeiro martírio para um sujeito possessivo caminhar acompanhado de sua mulher pelas ruas do Egito. A auto-estima gigantesca que os egípcios carregam é embasbacante e fará com que qualquer um deles, e quando digo qualquer um é &lt;i&gt;qualquer&lt;/i&gt; um mesmo, do mendigo ao desdentado, do balofo ao tiozinho-fim-de-carreira, aborde a mulher ao seu lado à sua passagem. E nada é suficiente para convencê-los de que aquela mulher não está disponível, e se ela não estiver de braços dados com você, a coisa certamente atingirá níveis insuportáveis. Para ela, principalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não custa lembrar que os homens e os deuses, de acordo com a mitologia dos antigos egípcios, nasceram de uma ejaculação do deus Atum, representado pelo sol poente. Ou seja, de acordo com os egípcios, o universo surgiu de uma punheta batida pelo Sol. Talvez esse fundo mitológico e poético não justifique a sem-vergonhice galante dos egípcios atuais, mais provavelmente fundada em heranças culturais relacionadas à segregação feminina. No Egito islâmico as mulheres são e sempre foram mero detalhe, aquela dona responsável pela limpeza da casa e por cuidar dos filhos. Elas, de acordo com a tradição, não podem trabalhar fora e não podem cuidar de sua própria vida, cabendo aos homens todo e qualquer tipo de trabalho. No Egito é quase impossível, a não ser nas classes mais altas, ver mulheres trabalhando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa segregação causou diversas mudanças de comportamento entre os homens, que andam de mãos dadas e abraçadinhos por todos os lugares, trocando aconchegos explícitos o tempo todo. Um hábito comum entre os homens egípcios, por exemplo, é o de “pegação” violenta. Aquelas famosas brincadeirinhas de luta que estamos acostumados a ver entre meninos impúberes, no Egito acontece com enorme frequência com homens de todas as idades, dos garotos aos velhinhos. Então é aquela encoxação meio histérica entre barbudos em todas as esquinas, bares e mesquitas. Falta de mulher, concluo, mesmo não entendendo nada. E olho aquela imensa multidão de mulheres engordando debaixo de roupas pretas que deixam apenas seus olhinhos tristes de fora e penso num poema de Rimbaud que acusa Cristo de ser um “eterno ladrão de energia”. Chego à conclusão de que com o profeta Muhammad não é diferente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixando para trás a Corniche El-Nil e o triste masturbador solitário, apertei com toda a força a mão da Egípcia do Crato, dizendo o quanto a amo e que ela fizesse bom proveito de toda a energia que eu tiver para dar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[ TO BE CONTINUED / A SUIVRE ]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3695782829192788861-249395580575669506?l=blogdojocaterron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/249395580575669506'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/249395580575669506'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdojocaterron.blogspot.com/2007/06/maldio-do-cosmopolitan-hotel-viii.html' title='A MALDIÇÃO DO COSMOPOLITAN HOTEL VIII'/><author><name>blog do joca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06215457349160002805</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://bp0.blogger.com/_NWaMHnGz07Y/RnZzkEJkSbI/AAAAAAAAAA0/aomFw86vqy8/s72-c/Paris+dia+15+de+junho+019.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3695782829192788861.post-6432689794421399449</id><published>2007-06-15T06:27:00.000-07:00</published><updated>2007-06-15T18:41:47.414-07:00</updated><title type='text'>O ATAQUE DAS MIRISOLETTES GIGANTES</title><content type='html'>&lt;a href="http://bp1.blogger.com/_NWaMHnGz07Y/RnKUfUJkSYI/AAAAAAAAAAc/7sgCxZBSx-I/s1600-h/mirisolettesgigantes.JPG"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5076282995705661826" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://bp1.blogger.com/_NWaMHnGz07Y/RnKUfUJkSYI/AAAAAAAAAAc/7sgCxZBSx-I/s320/mirisolettesgigantes.JPG" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Eu seguia pelas trilhas primaveris do Jardin de Luxembourg, curtindo meu doloroso processo de recivilização após um mês inteiro de pura barbárie cairota movida a Stellas e &lt;i&gt;shishas&lt;/i&gt; em combustão quando, sob a luz do sol que ilumina tudinho e não esconde nadinha, uma furibunda gangue de mirisolettes gigantes tentou roubar minha mochila contendo preciosos manuscritos e moleskines inteiros preenchidos com os desenhinhos e esqueminhas para escrever uma história de amor imprescindíveis a um escritor cerebral feito eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei aturdido por instantes, principalmente com o cecê de Leite de Rosas Davene subtraído da mamãe exalado pelos sovacos das mirisolettes, mas consegui dar no pé a tempo. Como consegui escapar? Joguei uma caixa de comentários no chão e elas se distraíram, fazendo comentários malvadinhos sobre escritores descolados que nunca publicaram livros e a programação da &lt;i&gt;Flapt 2009&lt;/i&gt; durante horas seguidas. Depois coloquei um crachá no peito de cada um deles escrito “colunista” e disse “Pronto. Agora vocês podem brincar de adivinhar quem entra e quem não entra no futuro da literatura brasileira.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E as mirisolettes gigantes ficaram lá, fazendo merda sozinhas sem encher o saco de ninguém, enquanto eu bebia umas cervejas (belgas -- chega de cervejas egípcias, ao menos por esta encadernação) bem longe dali.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3695782829192788861-6432689794421399449?l=blogdojocaterron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/6432689794421399449'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/6432689794421399449'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdojocaterron.blogspot.com/2007/06/o-ataque-das-mirisolettes-gigantes.html' title='O ATAQUE DAS MIRISOLETTES GIGANTES'/><author><name>blog do joca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06215457349160002805</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://bp1.blogger.com/_NWaMHnGz07Y/RnKUfUJkSYI/AAAAAAAAAAc/7sgCxZBSx-I/s72-c/mirisolettesgigantes.JPG' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3695782829192788861.post-452674277149374670</id><published>2007-06-12T04:39:00.000-07:00</published><updated>2007-06-15T02:18:29.235-07:00</updated><title type='text'>UM NINHO DE OSSOS</title><content type='html'>Quem me contou esta história foi meu amigo Wael. Eu lhe perguntara se a dieta tão minguada de carne do dia a dia dos egípcios não o incomodava. E ele, como muçulmano devoto que é, em vez de responder “sim” ou “não”, me veio com uma parábola. A parábola parece ser mesmo um ponto de contato entre as religiões cristãs e o islamismo, e esta história me interessou pelo fato de não ser a verdade propalada por algum profeta secular, mas sim uma fábula urbana do Cairo contemporâneo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentado atrás do front desk do Odeon Palace Hotel, Wael esclareceu vários mistérios que eu necessitava desvendar de uma só vez. O primeiro deles era por que os apartamentos do Odeon começavam apenas no 7º andar. O que poderia haver nos seis pisos abaixo do meu?, era o que eu me perguntava desde minha chegada. “Gente”, disse Wael, “mas não só gente”, continuou, acrescentando pitadas de enigma ao caldo de sua narrativa. “Tem bicho também, além de gente. Como a carne aqui é muito cara e as pessoas não têm dinheiro, elas começaram a criar bichos nas escadas e nos patamares de cada andar do prédio. Galinhas, pombos, patos, gansos e cabras, principalmente”, Wael disse, rindo de minha cara de espanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A história é também bastante indicativa da nostalgia rural experimentada pela população da cidade do Cairo, pensei com meus botões filosóficos, já que Wael me assegurou de que a criação de animais para subsistência das famílias não chega a ser privilégio do Odeon e que grande parte dos edifícios degradados do centro do Cairo abrigam suas granjas e currais internos, com pessoas convivendo com animais clandestinamente nos espaços interiores da megalópole. Confesso que o relato de Wael me aliviou um bocado, pois desde minha chegada eu vinha sonhando com balidos e cacarejos noturnos, a ponto de começar a questionar o equilíbrio de minha própria sanidade, talvez enlouquecida por alguma febre do deserto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Há cerca de cinco anos, porém, algo muito estranho aconteceu aqui no Odeon”, falou Wael, coçando o calo no meio de sua testa. “Um velho casal de coptas vivia no apartamento do sexto andar, até que a mulher morreu. O velho, que já era bastante fechado, depois da morte da dona isolou-se por completo, deixando de falar com os vizinhos e quase não saindo de casa”, ele prosseguiu, agora enrolando com cuidado um turbante na cabeça. “Com o passar do tempo, os moradores do Odeon descobriram que a mulher tinha morrido de câncer. Os egípcios são muito supersticiosos com o câncer. Se uma esposa adoece, por exemplo, o marido certamente a abandonará, afastando-a dos filhos com medo de que ela os contamine com a doença. Eles também nunca citam a parte do corpo tomada pelo câncer, pelo mesmo motivo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensando bem, essa ignorância temperada com misticismo não é de maneira alguma privilégio dos egípcios, fazendo lembrar as numerosas crendices que povoam os sertões brasileiros de Norte a Sul, com suas hordas de curandeiros e mil e uma benzeções e maldições. No caso específico do mundo árabe, porém, e muito devido ao fato de o Islam não condenar a magia e o misticismo (basta pensar nos Sufis e seus dervixes), o coquetel decorrente dessa mistura de devoção religiosa com ignorância primitivista pode ser explosivo. E assim sucedeu no Odeon Palace Hotel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quando as pessoas descobriram que a velha tinha morrido de câncer, elas começaram a perseguir o viúvo, identificando-o como um &lt;i&gt;djinn&lt;/i&gt;”, Wael continuou. “O &lt;i&gt;djinn&lt;/i&gt; é um espírito ruim e de influência nociva, não por acaso uma pessoa pertencente a outra religião. Como o velho era cristão copta e sua mulher morrera daquela doença terrível, ele certamente estava possuído por um espírito do mal, era o que todos acreditavam. Daí, certo dia, o velho saiu e ficou uma semana fora, talvez visitando parentes no oásis de Siwa, voltando durante a noite sem que ninguém o visse entrar. Depois disso, com o passar dos meses, ele não foi mais visto, apesar de todos saberem que estava em seu apartamento. Foi então que os bichos começaram a desaparecer das escadarias do Odeon. Primeiro foram animais menores que sumiram, uma gaiola de pombos foi arrebentada e poucas aves sobreviventes foram novamente encontradas pelos vãos do prédio, totalmente apavoradas. Após alguns dias, acharam marcas de sangue no patamar do primeiro andar e um pato e um ganso sumiram de seus cercados. Nesse meio tempo os moradores começaram a distribuir talismãs pelo prédio inteiro, dependurando olhos de Hórus de vidro em todas as portas. Chegaram até mesmo a colocar um enorme &lt;i&gt;diwan&lt;/i&gt;, uma Mão-de-Fátima de cobre, aqui no front desk do hotel. E então, na primeira lua cheia após as mortes começarem a acontecer, um aterrorizante uivo se fez ouvir pelas escadarias do Odeon, ribombando nas paredes e ecoando do primeiro ao último andar, e uma cabra foi encontrada parcialmente devorada num desvão do segundo piso. No dia seguinte pela manhã, os homens do prédio se reuniram e concluíram que o responsável pela desaparição dos bichos só podia ser o velho &lt;i&gt;djinn&lt;/i&gt; do sexto andar. Eles então decidiram lacrar sua porta, pregando tábuas e assim impedindo que ele novamente saísse de seu apartamento”, disse Wael. Ele suspendeu um pouco a narrativa, aproveitando para apreciar os efeitos causados por sua história em minha fisionomia pasma e ver que suas palavras haviam engolido completamente as minhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quinze dias após terem trancado o velho copta e intrigados com os uivos e ganidos que continuaram ressoando pelo prédio, os homens do Odeon resolveram abrir a porta para ver o que havia acontecido”, Wael disse, “e nem consigo imaginar seu espanto com o que encontraram no apartamento. No centro da sala, quase estático e com seu vasto pelame vibrando devagar com a respiração, estava um imenso chacal do deserto deitado sobre o ninho de ossos que semanas atrás tinham pertencido ao velho copta.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entregando minhas chaves e me desejando bons sonhos, Wael despediu-se de mim com um olhar de satisfação. Entrei no elevador e, enquanto os antigos mecanismos que inexplicavelmente ainda o mantinham funcionando me içavam ao sétimo andar, eu subia, elevado por uivos e toda sorte de sons animais vindos das escadarias do Odeon Palace Hotel e de desertos muito mais longínquos e selvagens.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3695782829192788861-452674277149374670?l=blogdojocaterron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/452674277149374670'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/452674277149374670'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdojocaterron.blogspot.com/2007/06/nostalgia-animal.html' title='UM NINHO DE OSSOS'/><author><name>blog do joca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06215457349160002805</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3695782829192788861.post-2065768858756524677</id><published>2007-06-11T11:53:00.000-07:00</published><updated>2007-06-15T06:37:27.225-07:00</updated><title type='text'>EM KHAN AL-KHALILI</title><content type='html'>&lt;a href="http://bp0.blogger.com/_NWaMHnGz07Y/Rm2aNUJkSXI/AAAAAAAAAAU/1KVu6Hz4SC4/s1600-h/IMG_0900.JPG"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5074881908654229874" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://bp0.blogger.com/_NWaMHnGz07Y/Rm2aNUJkSXI/AAAAAAAAAAU/1KVu6Hz4SC4/s320/IMG_0900.JPG" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; Nas imediações do &lt;i&gt;souq&lt;/i&gt; medieval de Khan Al-Khalili, acompanhado da espiã francesa &lt;a href="http://www.postaisdeliliput.zip.net/"&gt;Egípcia do Crato&lt;/a&gt;, alguns dias depois de ser sequestrado por ela para viagens de trem até Alexandria e Luxor (aguarde os próximos e finais capítulos de “A maldição do Cosmopolitan Hotel”) e um pouco antes de vir a Paris, onde estou desde o dia 10 de junho em intenso processo de &lt;i&gt;recivilização&lt;/i&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3695782829192788861-2065768858756524677?l=blogdojocaterron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/2065768858756524677'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/2065768858756524677'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdojocaterron.blogspot.com/2007/06/em-khan-al-khalili.html' title='EM KHAN AL-KHALILI'/><author><name>blog do joca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06215457349160002805</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://bp0.blogger.com/_NWaMHnGz07Y/Rm2aNUJkSXI/AAAAAAAAAAU/1KVu6Hz4SC4/s72-c/IMG_0900.JPG' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3695782829192788861.post-6958037315081496816</id><published>2007-06-11T11:44:00.000-07:00</published><updated>2007-06-12T04:41:39.982-07:00</updated><title type='text'>NO CAFÉ EL HORREIYA</title><content type='html'>&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5074880010278685026" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; CURSOR: hand" alt="" src="http://bp2.blogger.com/_NWaMHnGz07Y/Rm2Ye0JkSWI/AAAAAAAAAAM/F-oiQINSzyo/s320/Img_0842.jpg" border="0" /&gt;Nesta foto, o cineasta, fotógrafo e ex-animador de auditório (lembram da “Fábrica do Som”?) Tadeu Jungle tenta (em vão) apostar corrida de Stellas com seu entrevistado. Gravamos o papo no Café El Horreiya, na Midan Al Falaki, um bar fundado em 1908 frequentado pela malandragem do centro da cidade. O El Horreiya demarca também o início da parte islâmica do Cairo (definição imprecisa, pois – com exceção da parte velha da cidade, de origem romana e copta – a cidade é inteiramente muçulmana), sendo o último bastião da boemia antes de penetrar terrenos do Islam, onde achar uma &lt;i&gt;bira&lt;/i&gt; torna-se missão impossível até mesmo para o mais incansável apreciador dos poderes revigorantes desse notável refrigerante etílico.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3695782829192788861-6958037315081496816?l=blogdojocaterron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/6958037315081496816'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/6958037315081496816'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdojocaterron.blogspot.com/2007/06/imagens-cairotas-01.html' title='NO CAFÉ EL HORREIYA'/><author><name>blog do joca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06215457349160002805</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://bp2.blogger.com/_NWaMHnGz07Y/Rm2Ye0JkSWI/AAAAAAAAAAM/F-oiQINSzyo/s72-c/Img_0842.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3695782829192788861.post-348575310724865839</id><published>2007-06-09T02:17:00.000-07:00</published><updated>2007-06-09T02:24:54.745-07:00</updated><title type='text'>A MALDIÇÃO DO COSMOPOLITAN HOTEL VII</title><content type='html'>Enquanto a Egípcia do Crato aguçava sua beleza num banho de espuma, eu tergiversava olhando o mar. Alexandria estabeleceu sua aura de balneário decadentista ainda no século XIX, quando o Paxá Muhammad Ali (o criador do Egito moderno) transformou a cidade no principal porto comercial do país e a renovou, criando prédios modernos e abrindo-a para o capital estrangeiro. Foi nesse período de dominação otomana que se iniciou a poderosa influência britânica no Egito, que se intensificaria com a inauguração do Canal de Suez em 1869 pelo Khedive Ismail, filho de Muhammad Ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A grana européia ergueu coisas belíssimas no Egito. Edifícios, colunatas, arcadas, belvederes, boulevards, fontes, avenidas e praças lindíssimas, tudo isto espelhava o desejo excêntrico dos milionários de reproduzirem grandes cidades da Europa em pleno Oeste Africano, misturando a arquitetura ocidental com fachadas neo-islâmicas, minaretes turcos e abóbadas mamelucas, fazendo assim do Cairo e de Alexandria cidades únicas no mundo, com seus delírios de idealização oriental arquitetônica. A festa acabou em 1952, quando Gamal Abdel Nasser deu o golpe de estado, fundando a República Árabe do Egito e despachando o Rei Farouk (que saiu pela culatra aqui mesmo de Alexandria, zarpando do Palácio Ras El Tin para a Itália, onde morreria dez anos depois, engasgado com comida num restaurante – ô triste fim da pantomima monárquica!) e, por consequência, mandando os britânicos embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É nesse ponto que a Egípcia do Crato me interrompe, saindo do banheiro. Eu gostaria de descrevê-la com um vestido diáfano decotado, mas não estaria sendo correto com a realidade islâmica de Alexandria e do resto do Egito. Se uma mulher sair em público aqui mostrando, hum, vejamos, os ombros, ela será ofendida desde o primeiro passo que der na rua até o último, isto se não acontecer coisa pior. A Egípcia do Crato, porém, mantinha seu garbo de espiã mesmo em seus jeans. E eu sempre poderia admirar seu rosto e suas mãos. Foi fazendo isto, debaixo dos espetaculares lustres do amplo salão do Café Trianon, que comecei a desenvolver algumas teorias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A república árabe de Nasser foi responsável, entre outras coisas, pela legítima nacionalização do Canal de Suez (ai!), o que gerou imediata retaliação dos países que iam e vinham pra lá e pra cá, transportando suas mercadorias sem taxação alguma. Nasser também desapropriou todos os prédios, escritórios e casas de europeus que caíram fora após a revolução. Essa foi praticamente uma condenação à morte de toda a arquitetura &lt;i&gt;fin-de-siècle&lt;/i&gt;, abandonada ao descaso público. Não tenho dados específicos sobre Alexandria, onde o fenômeno consequente não difere do ocorrido no Cairo, cujos dados fornecidos pela prefeitura em 2002 permitem entender o grau da encrenca: &lt;b&gt;60%&lt;/b&gt; da população do Cairo vive clandestinamente em prédios ilegais e sem níveis adequados de segurança; 25% dos prédios estão à beira do colapso, enquanto que 40% não atendem condições higiênicas para habitação e 850.000 estão condenados. Aqui no Egito um número impressionante de pessoas morre soterrada pela própria(?) casa ou achatada nas ruas por sacadas que despencam sobre sua cabeça. É por essas e outras que convém no Egito caminhar sempre olhando para o alto. E não espere por um piano caindo do nono andar, mas o nono andar inteiro, incluindo o piano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toda essa doideira me faz pensar no Egito como um paradoxo ululante, pois enquanto templos e monumentos de 3.000 anos AC continuam intactos, em muito breve as recordações do século XIX e XX não passarão de ruínas. Idéia ainda mais trágica é a de que não serão encontradas múmias de faraós célebres debaixo delas, mas apenas os ossos anônimos dos miseráveis do presente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passeando com a Egípcia do Crato entre as belezas arquitetônicas da &lt;i&gt;belle époque&lt;/i&gt; que ainda subsistem em meio à quase totalidade de prédios arruinados de Alexandria, perfazíamos o caminho literário praticado por E. M. Forster, Lawrence Durrell e o poeta grego Konstantinos Kavafis. Enquanto Forster e Durrell se esconderam por aqui apenas durante a Segunda Guerra Mundial e escreveram suas obras descrevendo o lugar somente anos depois, Cavafis passou toda a vida em Alex. Filho de uma família com posses que se viu de repente na merda, ele trabalhou a vida toda num escritório sobre o Café Trianon, em cujas mesas escrevia seus magníficos poemas permeados de reminiscências clássicas greco-romanas e homoerotismo (traduzidos aí no Brasil pelo grande José Paulo Paes). O apartamento de segundo andar num prédio baixo onde o poeta viveu seus últimos 25 anos, transformado em pequeno museu, é um sonho de qualquer escritor. Numa pequena viela calma e arborizada da Sharia Nabi-Daniel, a casa de Kavafis fica a poucos quarteirões do Café Pastroudis (fechado recentemente, vejam só que desgraça), sendo que num extremo do beco fica uma igreja ortodoxa grega e no outro, o Hospital Grego. “Abrigos para o espírito e para o corpo sob idêntico alcance”, gracejou o poeta, alegando que ali era o lugar perfeito para ele viver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de zanzar pelo Anfiteatro Romano em Kom-al-Dikka e darmos com a cara na porta do Museu Greco-Romano (“fechado para reformas”, disse o guarda; aqui é baixa temporada e os sítios históricos melhor administrados estão todos meio que em obras), retornamos à orla, até o recomendabilíssimo restaurante Fish Market, onde eu &lt;b&gt;necessitava&lt;/b&gt; tirar a barriga da miséria de carne e com peixe, claro (sou cuiabano, afinal, e o apelido dos cuiabanos – não sei se vocês sabem – é “papa-peixe”). Uma sensacional vista das proximidades do porto e do Forte Qaitbey deram a mim e à Egípcia do Crato o melhor final de tarde da Terra. O restaurante é genial: você seleciona peixes, camarões, frutos do mar fresquinhos e escolhe o modo de preparo. Depois de prontos, os pratos são servidos com saladas e &lt;i&gt;mezzes&lt;/i&gt;, e tudo a um preço baixinho, baixinho. Paz na terra aos homens de bom gosto e apetite. Daí o sol se afogou no Mediterrâneo sem salva-vidas que o resgatasse (ao menos para aquele dia) e nós rumamos para alguns drinques mais no bar Cape D’Or de Alexandria, muito mais charmoso, com seu balcão de cobre e de mármore, do que seu homônimo no Cairo. Depois disso, o mergulho alvo nos lençóis do Hotel Union e o som das ondas fornecendo o ritmo ideal para o amor e para o fim irrevogável das maldições.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[ TO BE CONTINUED / A SUIVRE ]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3695782829192788861-348575310724865839?l=blogdojocaterron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/348575310724865839'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/348575310724865839'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdojocaterron.blogspot.com/2007/06/maldio-do-cosmopolitan-hotel-vii.html' title='A MALDIÇÃO DO COSMOPOLITAN HOTEL VII'/><author><name>blog do joca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06215457349160002805</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3695782829192788861.post-3765896111312538347</id><published>2007-06-09T02:16:00.000-07:00</published><updated>2007-06-09T02:17:23.286-07:00</updated><title type='text'>A MALDIÇÃO DO COSMOPOLITAN HOTEL VI</title><content type='html'>A Egípcia do Crato vencia as pedras pontiagudas da pirâmide de Userkaf com a sinuosidade de uma cobra, esticando suas longilíneas pernas de rocha a rocha e ladeira a baixo, até aterrissar na areia do Grande Deserto Ocidental. “Aterrissar” era precisamente o termo a ser usado, pois a espiã francesa era mesmo um estupendo caça-a-jato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que você anda tramando, Egípcia do Crato?”, eu lhe disse, envolvendo sua cinturinha 38. Ela então virou para mim seu rosto esculpido sobre maxilares de suçuarana. Os olhos dissimulados de agente secreta internacional eu podia apenas imaginá-los, pois se escondiam detrás de Ray-Bans prateados. Ela também tinha sua cabeça nobre e bela emoldurada por um &lt;i&gt;hegab&lt;/i&gt; com fios de ouro acesos pelo sol que me fizeram esquecer por um momento as sevícias e trapaças de que era capaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Passeando, Terron. Me aposentei, ao menos temporariamente”, ela sussurrou, com seu sotaque francês de Barbalha. “E eu poderia até dizer que você caiu das nuvens, se aqui tivesse alguma nuvem. Ando carente de companhia masculina perspicaz, nesta terra de mouros.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, perspicaz? Minha paranóia apitou feito o Arnaldo César Coelho: a Egípcia do Crato estaria mancomunada com os leitores do TodoProsa, a revista Veja e Reinaldo Aze(ve)do? Eu não conseguia imaginá-la, com todo aquele charme dilapidado nas ruas de Paris e de Juazeiro, como mais uma mirisolette grotesca. Não, eu não queria acreditar nessa possibilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É mesmo? Tamos aí. O que tá pensando fazer?”, falei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Reservei uma suíte com vista para o Mediterrâneo, em Alexandria. O &lt;i&gt;Turbini&lt;/i&gt; sai hoje, às 9h30. Que tal vir comigo?”, ela disse, e quando esse convite suspeito caiu de seu lábio inferior espesso e convidativo como um bife tenro, não tive escapatória. E muito menos gostaria de ter.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que você acha? Tou com motorista me esperando. É só passar no hotel e pegar a mochila. Quer carona?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E o que &lt;i&gt;você&lt;/i&gt; acha? Eu sabia que adivinharia todos os meus desejos, Joquinha”, ela falou, sacando o Ray-Ban e piscando para mim. Seus olhos castanhos prometiam a mais irrestrita revogação de qualquer praga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O &lt;i&gt;Turbini&lt;/i&gt; é o melhor entre os trens que percorrem o trecho Cairo-Alexandria, com poltronas largas e limpinhas que fazem a gente esquecer por 2h40 que está no Egito. Tudo funciona, o trem anda e ninguém enche meu saco, como antes havia enchido o tiozinho das bagagens na Estação Central da Midan Ramsés, implorando por &lt;i&gt;baqshish&lt;/i&gt; após ter me dado informações que não solicitei. A estação também é muito bonita, lembrando algumas estações de trens brasileiras, e sou acometido por irreparáveis crises nostálgicas toda vez que sento no banco de uma delas e fico observando as pessoas chegando e partindo. Deve ser porque sou neto de ferroviário (meu avô espanhol, Juan José Terron Fernández, era maquinista da FEPASA em Marília, interior de São Paulo) e também órfão de nosso sistema de trens para passageiros, cuja extinção considero uma prova (apenas uma) da total estupidez dos administradores públicos brasileiros. Anfã: os trens de passageiros do Brasil partiram e nunca mais voltaram às estações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu lamentava tais cousas e apreciava as palmeiras correndo junto à paisagem e os carros mandando bala na Desert Road, que segue paralela aos trilhos até &lt;i&gt;Al-eksandEria&lt;/i&gt; (é como os árabes daqui pronunciam o nome dessa cidade, berço do cosmopolitismo do país). Aproveitava também para tirar umas casquinhas da Egípcia do Crato, acariciando seu cotovelo lânguido com meu pobre cotovelo lanhado de escritor fedido e mal pago. A idéia consistia em: se aquele cotovelinho alimentado à base de Nivea curtisse a aparência boêmia e abalconada do meu, eu estaria feito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afinal, à nossa frente estava Alexandria, cidade às margens do Mediterrâneo fundada por Alexandre, o Grande (em 332 DC) para rivalizar com Roma. Era certo que nosso destino nos prometia um amor grandioso, ao contrário do histórico de maldições da cidade, palco da tragédia pré-shakesperiana de Cleópatra e Marco Antonio. Eu, na realidade, não me preocupava apenas em ver o Pilar de Pompeu ou o Anfiteatro Romano em Kom-al-Dikka (o único em todo o Egito, descoberto em 1965 quando cavavam as fundações para a construção de um edifício). Apesar de saber que ir para Alex em busca do clima presente no “Quarteto de Alexandria” de Lawrence Durrell ser a mesma coisa que ir à Londres na tentativa de ver Mary Poppins no céu, era isto mesmo que eu queria, o cheirinho deixado por aquela tradição literário-decadentista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao chegar na estação, pegamos um táxi e seguimos para a orla. No caminho, a imponência intacta do Cecil Hotel, cenário do “Quarteto” de Durrell e QG do serviço secreto britânico nos tempos doirados, o que incendiou os brios da Egípcia do Crato: “Pfuá!”, ela assoprou com desprezo seu biquinho francês. O lugar também ficou célebre por hospedar Somerset Maugham, Noel Coward e outros bichos. Para minha surpresa e a de meu ego, porém, o táxi seguiu em frente mais 50 metros, brecando diante do Hotel Union, constelações inteiras abaixo de seu vizinho Cecil. “A coisa tá feia até mesmo para espiãs francesas, meu caro”, disse a Egípcia do Crato, com seu sorriso lúbrico já mordendo o que minha imaginação ainda alimentava. No quarto, a surpresa: o hotel estava completamente vazio e nos deram uma suíte com sacada, cuja vista permitia ver a baía de ponta a ponta, do Forte Qaitbey (construído no local onde ficava o célebre Farol de Alexandria) à Bibliotheca Alexandrina (não a antiga, a nova, inaugurada em 2002). E a cama era de casal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dependurado qual um escritor do século XX naquele balcão iluminado pelo sol e observando de modo incansável a orla mediterrânea de Alexandria (que já foi injustamente chamada de uma “Cannes com acne”), eu me sentia nada mais nada menos do que o máximo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[ TO BE CONTINUED / A SUIVRE ]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3695782829192788861-3765896111312538347?l=blogdojocaterron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/3765896111312538347'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/3765896111312538347'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdojocaterron.blogspot.com/2007/06/maldio-do-cosmopolitan-hotel-vi.html' title='A MALDIÇÃO DO COSMOPOLITAN HOTEL VI'/><author><name>blog do joca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06215457349160002805</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3695782829192788861.post-1658696116736974918</id><published>2007-06-05T13:05:00.002-07:00</published><updated>2007-06-05T13:06:29.762-07:00</updated><title type='text'>A MALDIÇÃO DO COSMOPOLITAN HOTEL V</title><content type='html'>Andar de camelo nas dunas do Saara pode ser uma experiência tão marcante quanto um grande caso de amor: só dói quando acaba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A simpatia que esses bichos irradiam, entretanto, foi plenamente confirmada. O meu camelo (cujo nome alguém me disse mas eu não entendi; adotei então o nome de Marcelo) parecia querer me revelar algo muito importante, pois mastigava e babava o tempo todo, ameaçando volta e meia dizer alguma coisa. O que seria? Uma história de amor entre camelos? Ou estaria querendo me fornecer o paradeiro da Egípcia do Crato, a terrível espiã francesa e notória especialista no sumiço de narizes de Esfinges e da estátua de 90 toneladas de Ramsés II da Midan Ramsés? Seria Marcelo, o camelo, uma mirisolette disfarçada? Minha paranóia deu o breque: e se tudo aquilo tudo fosse uma tramóia de Hosny El Ashmony &amp; as mirisolettes para terroristicamente detonar com minha historinha de amor? Acabei ficando na dúvida e a única certeza que tive foi a de que camelos vivem apenas 20 anos, do mesmo jeitinho que o pobre Tuthankamon ou Álvares de Azevedo. Pobres das almas românticas dos camelos, faraós e poetas das Arcadas, esses defuntos precoces e jovens permanentes!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de duas horas no lombo do bicho e de ver as pirâmides de todos os ângulos possíveis e impossíveis, eis que surge a Esfinge. Da Esfinge a melhor coisa que disseram foi que “vê-la é igual conhecer uma personalidade da TV em carne e osso” – rochas e areia, neste caso – “ela é sempre menor do que a imaginamos.” Das pirâmides, a melhor coisa foi dita pelo cara que alugava camelos: “Very big, very old.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu pensava em pedir à Esfinge que ela me contasse uma história de amor, quando minha visão foi tapada por um milhão de sombrinhas multicoloridas das turistas japonesas despejadas pelos ônibus. Acabei desistindo de tudo e de lá retornamos ao ponto de partida no favelão de Giza, com a garotada correndo atrás de meu camelo e gritando “Cowboy! Cowboy!”, na expectativa de que eu abrisse a torneirinha de dólares. Tadinhos. Morreram de sede ali: nada de verdinhas em pleno deserto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de apear do Marcelo (descer de um camelo pode ser perigoso que só: basta se distrair na hora do movimento de montanha-russa que ele faz quando ajoelha as patas dianteiras e babau: sua dinastia faraônica terminará em você mesmo), me aguardava Hosny El Ashmony, o taxista trapaceiro &amp; mirisolette militante, provavelmente com mil artimanhas calculadas para me empobrecer ainda mais. De lá seguimos para Mênfis, onde eu ansioso esperava que arqueologistas ingleses ou franceses (mais provavelmente americanos) tivessem descoberto nos últimos tempos a tumba secretíssima de um faraó desconhecido da última dinastia chamado Elvis I (imaginem a bela máscara mortuária com seu topete proeminente), mas que nada, Mênfis é uma decepção completa. Só não foi tão grande assim pelo fato de encontrar por lá a estátua de 90 toneladas de Ramsés II, aquela que ficou por 50 anos assistindo o engarrafamento do centro do Cairo como se fosse um guardinha de trânsito super-nutrido. Quer dizer que a gigantesca estátua não havia sido roubada pela Egípcia do Crato? Teria a espevitada espiã e &lt;i&gt;femme fatale&lt;/i&gt; de carteirinha se regenerado? Era o que eu precisava descobrir com urgência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Derrotado por minha renitente sovinice, Hosny El Ashmony desistiu das trapaças e me contou da dificuldade de pagar escola particular para suas duas filhas pequenas (“3.000 Libras Egípcias por ano, uma dureza. Mas fazer o quê? O ensino público aqui é uma droga”). Hosny desistiu também, nesse momento de intercâmbio de nossas experiências paternas internacionais, de adotar a amedrontadora voz de narrador de “Twilight Zone” que utilizara até então para falar dos sítios arqueológicos que visitávamos. Hosny El Ashmony afinal provou ser um sujeito legal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A última vez que Hosny adotou sua voz de narrador de filme de horror foi na entrada de Saqqara (“S-a-q-q-a-r-a-a-a-a-a”, Hosny disse de maneira soturna, repetindo os “a” como se fosse o som de uma porta de tumba rangendo ao ser aberta). A 30km ao sul do Cairo, essa foi a parte mais deliciosa do passeio. Em pleno Deserto Ocidental e contornado pela área de cultivo do Vale do Nilo, com 7km de extensão e pouco visitada pelos turistas, Saqqara passou aquela sensação de isolamento aguardada desde que pisei no chão empoeirado do Aeroporto Internacional do Cairo. O lugar é formidável desde a entrada, o Serapeum, uma sequência de colunas em forma de &lt;i&gt;uraeus&lt;/i&gt;, aquela cobra de cabeça larga que representa a deusa Wadjet, protetora dos faraós. Saqqara foi o principal crematório do Egito Antigo por 3500 anos, além de reunir um complexo sistema de necrópoles. Ou seja, eu estava no meio de um cemitério gigante, pronto para que a maldição dos séculos caísse sobre minha cabeça calva e chamuscada pelo sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas que nada: caminhar a esmo pelo areião em silêncio completo, a não ser pelo som do vento, foi uma bênção, assim como ver ao longe o círculo verde do horizonte de plantações às margens do Nilo e de seus afluentes. E daí conhecer a magnífica Pirâmide de Degraus do faraó Zoser, o mais antigo monumento de pedras feito pelo homem (2650 AC). É algo que não acontece toda segunda-feira, convenhamos. Depois disso, bater perna pelas tumbas e outras pirâmides e ficar olhando os beduínos cochilando à sombra dos camelos e os vira-latas, únicos habitantes das pirâmides nos dias de hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi então, no zênite do final da manhã que eu vi, qual miragem flamejante no topo da pirâmide de Userkaf, a silhueta sexy da Egípcia do Crato em pose de desafio. Desta vez ela não me escaparia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[ TO BE CONTINUED / A SUIVRE ]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3695782829192788861-1658696116736974918?l=blogdojocaterron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/1658696116736974918'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/1658696116736974918'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdojocaterron.blogspot.com/2007/06/maldio-do-cosmopolitan-hotel-v.html' title='A MALDIÇÃO DO COSMOPOLITAN HOTEL V'/><author><name>blog do joca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06215457349160002805</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3695782829192788861.post-4503193851596547946</id><published>2007-06-05T13:05:00.001-07:00</published><updated>2007-06-05T13:24:06.752-07:00</updated><title type='text'>INTERLÚDIO: A ESFINGE</title><content type='html'>“Me conta uma história de amor, Esfinge?”&lt;br /&gt;“Decifra-me ou te devoro.”&lt;br /&gt;“Que é isso, o título da história?”&lt;br /&gt;“Eu sou uma esfinge, cara. Eu proponho enigmas. Procure histórias de amor em outro departamento.”&lt;br /&gt;“E o amor não é o mais indecifrável enigma jamais inventado, Esfinge?”&lt;br /&gt;“Aí você me pegou.”&lt;br /&gt;“Então. Conta uma história de amor aí, vai.”&lt;br /&gt;“Hum... História de amor?”&lt;br /&gt;“É. Bem bonita. Daquelas que fazem a gente chorar.”&lt;br /&gt;“Mela-cueca?”&lt;br /&gt;“É. Ando meio piegas. Deve ser a solidão do Cairo.”&lt;br /&gt;“Solidão... Você não faz a &lt;i&gt;menor&lt;/i&gt; idéia do que seja a solidão.”&lt;br /&gt;“Que é isso, um enigma?”&lt;br /&gt;“Decifra-me ou te devoro.”&lt;br /&gt;“Pára com isso. Eu sei bem o que é a solidão. Não essa sua solidão cercada de areia e de vento, mas a solidão da metrópole. Sabia que a gente pode se sentir bastante sozinho no meio de 20 milhões de pessoas que não falam a nossa língua, Esfinge?”&lt;br /&gt;“Agora você que me vem com enigmas.”&lt;br /&gt;“O que aconteceu com seu nariz, Esfinge?”&lt;br /&gt;“Ah, não, essa sim é que é uma história triste.”&lt;br /&gt;“Ah, vai. Contaê.”&lt;br /&gt;“Bem, como você deve saber, até o começo do século XIX o meu corpo estava inteiramente enterrado. Só aparecia a cabeça.”&lt;br /&gt;“Não sabia, não.”&lt;br /&gt;“Pois é. Foi só quando Napoleão invadiu o Egito, em 1798, que chegaram os especialistas que iniciaram os estudos sobre o Egito Antigo. Foram esses caras que me desencavaram.”&lt;br /&gt;“Ah, tá. Então a história de amor que você vai me contar é a dos franceses pela Egiptologia.”&lt;br /&gt;“Mais ou menos. Como você sabe, em história de amor sempre rola porrada.”&lt;br /&gt;“E daí?”&lt;br /&gt;“E daí que, além dos cientistas, Napoleão trouxe soldados, que gostavam de praticar tiro ao alvo aqui no meu nariz.”&lt;br /&gt;“Tá brincando?”&lt;br /&gt;“Por acaso eu estou sorrindo?”&lt;br /&gt;“Não.”&lt;br /&gt;“E a Mona Lisa, lá no Louvre, está sorrindo?”&lt;br /&gt;“É outro enigma?”&lt;br /&gt;“Decifra-me ou te devoro.”&lt;br /&gt;“Deixa disso, Esfinge. Que mania.”&lt;br /&gt;“Como você pode ver, meus dentes ainda não caíram.”&lt;br /&gt;"E agora, você está sorrindo?"&lt;br /&gt;"Claro que não. E isto também não é uma gargalhada."&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3695782829192788861-4503193851596547946?l=blogdojocaterron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/4503193851596547946'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/4503193851596547946'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdojocaterron.blogspot.com/2007/06/interldio-esfinge.html' title='INTERLÚDIO: A ESFINGE'/><author><name>blog do joca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06215457349160002805</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3695782829192788861.post-1671574061405078395</id><published>2007-06-05T13:03:00.000-07:00</published><updated>2007-06-05T13:04:58.106-07:00</updated><title type='text'>A MALDIÇÃO DO COSMOPOLITAN HOTEL IV</title><content type='html'>Eu perscrutava os olhos dourados de Tuthankamon em busca de respostas ou ao menos de uma piscadela de compreensão que fosse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele momento, um pouco depois do bando de turistas japoneses nos deixar a sós, pude então ouvir o que parecia ser um sussurro trazido pelo vento do deserto. Ou seriam fiapos de uma voz esgarçada cuspida pelo passado distante?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu não cheguei a amar”, a voz rouca dizia, “Não tive tempo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para todos os lados e confirmei que não havia mais ninguém na sala, além de mim mesmo e de Tuthankamon, representado por sua jovial máscara mortuária de ouro maciço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Morri muito cedo, amigo”, Tuthankamon continuou, “não deu nem ao menos para me apaixonar. E você sabe como são os adolescentes: estão interessados apenas em carros e em velocidade.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Carros e velocidade?”, repeti, meio incrédulo e sentindo-me um bocado solitário ali, conversando com aquela máscara vazia que bem podia ser o capacete de um extravagante piloto egípcio de Fórmula 1.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Exato. No Egito dos faraós não era muito diferente dos dias de hoje. Eu me amarrava em pilotar uma charrete a 100km por hora na Avenida das Esfinges, lá em Luxor. Certo dia, fiz uma cagada na direção. A charrete capotou e machuquei a perna. Daí a ferida infeccionou e pronto: eis-me aqui papeando com o amigo escriba, 3 mil anos depois.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que chato. Na plaquinha aí embaixo diz que você tinha só 19 anos. Sinto muito por isso, Thutinha.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tá tudo bem. Eu gosto daqui. Volta e meia aparecem umas minas gostosas usando uns vestidos curtinhos. Dá pra ver bastante coisa deste ângulo. Pena que não vou poder te ajudar com a história de amor. Ei, por que você não pede ajuda pra Esfinge, lá em Giza?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pra Esfinge?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Isso aí. A Esfinge sempre tem boas histórias pra contar”, falou Tuthankamon. “Agora peço desculpas pro amigo, vou tirar um cochilo. Antes que apareçam mais japoneses, se é que me entende.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Entendo, claro. Prazerzão e boa soneca.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Valeu. E boa sorte com a sua história”, disse Thutinha, recolhendo-se ao seu mutismo de sarcófago.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei em silêncio por algum tempo também, apenas ouvindo o zumbido das moscas rodeando as múmias reais do Egyptian Museum. Eu precisava urgentemente maneirar na mistura de Tramal 50 com cerveja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela mesma noite liguei para Hosny El Ashmony, um taxista recomendado pelo hotel, e, no comecinho da manhã seguinte, rumávamos ao Platô de Giza para ver as pirâmides e a Esfinge.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faço um pit-stop imaginário nesse passeio para falar de certa aflição que tem me acometido: o Egito é o inquestionável campeão mundial do clichê turístico, como vocês sabem, e o sem número de atrações existentes  por aqui (só na cidade do Cairo são mais de 500) faz com que a gente &lt;i&gt;tropece&lt;/i&gt; em sítios arqueológicos em todo e qualquer lugar que pise. Como nunca antes estive num lugar onde o peso da História fosse tão onipresente, confesso minha cabreirice inicial e já superada em sair de meu papel costumeiro de turista acidental (“Viajar, perder países”, escreveu Pessoa) e programar alguns passeios mais tradicionais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ocorre que o livro que estou planejando não tem nada ou tem muito pouco a ver com as encarnações passadas da cidade do Cairo (se é que é mesmo possível distinguir um Cairo exclusivamente contemporâneo), daí o conflito entre minha necessidade de conhecer melhor as nuances atuais da metrópole e conhecer outras atrações como, por exemplo, a da Grande Pirâmide de Quéops, única sobrevivente das Sete Maravilhas do Mundo Antigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como vocês já podem imaginar, porém, o inigualável poder magnético das pirâmides destruiu minhas dúvidas por completo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pirâmides serviram também para destruir com algumas idéias pré-concebidas que eu tinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hosny El Ashmony pilotava seu possante Daewoo pela Pyramid Road, uma avenida cercada de favelas nos subúrbios da cidade do Cairo, quando, à minha direita e detrás dos postes de luz e dos barracos empilhados no horizonte, surgiram as pirâmides de Quéfren, Miquerinos e Quéops. Em questão de segundos aquela imagem de cartão postal das pirâmides no meio do deserto que existia em minha cabeça implodiu completamente, como se fosse a de um prédio construído pelo Sérgio Nahas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A região onde as pirâmides ficam está dentro da cidade do Cairo há algumas décadas. Para se fazer idéia, os primeiros restaurantes com vista para elas surgiram já nos anos 1940, e as fotos de cartão postal que ficaram registradas no imaginário mundial pertencem à década de 1920, auge das descobertas da egiptologia e início do &lt;i&gt;boom&lt;/i&gt; turístico no Egito. Foi naquele período que aristocratas e nobres europeus viajavam pra cá, trazendo seus carrões em transatlânticos através do Mediterrâneo e cravando na nossa memória a idéia de sofisticação ligada ao Egito. Basta nos dias de hoje, porém, olhar para a breguice inigualável do restaurante &lt;b&gt;Christo&lt;/b&gt; (que oferece, além da privilegiada vista para as pirâmides e para o favelão, peixe frito e shows de dança do ventre), para ter certeza de que os bons tempos não voltam mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E olhe que a situação parece ter melhorado muito desde 2004, quando o Ministério do Turismo decidiu isolar as pirâmides da população do platô de Giza com uma muralha. Assim, os camelôs, “guias” e donos de camelos que empesteavam o local, assombrando os turistas, foram obrigados a ficar do lado de fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto eu remoía essas considerações, meu piloto Hosny El Ashmony tramava contra meu bolso ao celular, provavelmente armando com seus comparsas alguma maneira de me levar à falência. Hosny, porém, não sabia patavinas (assim como todos os malandros do Egito) a respeito do conteúdo do guia “Lonely Planet”, que eu tinha lido de cabo a rabo mais de uma vez. Eu estava preparado. Bem, ao menos assim pensava. Foi então que Hosny El Ashmony, o mala sem alça, perguntou se eu queria conhecer as pirâmides “pelo lado de fora ou pelo lado de dentro”. Epa! Então quer dizer que o “Lonely Planet” não dava todas as dicas? Seria uma pegadinha? Pensei um pouco nas aflitivas descrições do interior da pirâmide de Quéops feitas por viajantes claustrofóbicos e respondi “pelo lado de fora”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em poucos minutos e após árdua negociação nos arredores das pirâmides, eu rebolava sobre a corcova de um camelo, atravessando o favelão com garotinhos correndo atrás de mim e berrando “Cowboy! Cowboy!” Alguns minutos e estávamos no areião do deserto. Entramos, pelo que entendi, por uma porta “alternativa” dos fundos, após Abdul, o guia, molhar a mão do segurança. Depois de um bom tempo e de algumas dunas escaladas, estávamos afinal distantes do burburinho dos malacos e dos turistas e ouvindo só o vento. Foi nesse instante que Abdul se aproximou de mim galopando e quebrou o encanto da coisa toda com uma brincadeirinha para descontrair: “Welcome to Alaska!”, ele disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram 10h da manhã e o sol e o meu humor não estavam para piadas prontas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[ TO BE CONTINUED / A SUIVRE ]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3695782829192788861-1671574061405078395?l=blogdojocaterron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/1671574061405078395'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/1671574061405078395'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdojocaterron.blogspot.com/2007/06/maldio-do-cosmopolitan-hotel-iv.html' title='A MALDIÇÃO DO COSMOPOLITAN HOTEL IV'/><author><name>blog do joca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06215457349160002805</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3695782829192788861.post-3880286335400805469</id><published>2007-05-31T13:14:00.000-07:00</published><updated>2007-05-31T13:45:32.193-07:00</updated><title type='text'>GRÃOS-DE-BICO</title><content type='html'>Vinte dias fora de casa e já começo a sonhar com chuva e silêncio. Mandei as favas às favas, as lentilhas catar coquinhos, aos gergelins só digo não e não, em vez de sim e sim, e aos grãos-de-bico, bem, que virem seus bicos para o outro lado, não para o meu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começo a sentir saudades de minha própria comida, aquela que eu mesmo faço. Começo a sentir saudades do tempo em que sentia saudades da comida de minha mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta noite acordei, incomodado com o calor que começou a se acentuar de maneira insuportável nos últimos dois dias. Fiquei parado na janela, tentando capturar alguma brisa noturna, mas nada de brisa, apenas um bafo quente vindo de fora. A cidade estava em completo silêncio. Para onde foram os táxis buzinando e as pessoas berrando e os &lt;i&gt;muezzins&lt;/i&gt; rezando o tempo todo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto suspeitava da proximidade de uma hecatombe vinda dos lados de Gaza ou do Golfo, comecei a ouvir, vinda de muito longe e do meio da escuridão, talvez de uma outra rua ou de um outro bairro ainda mais distante, bem baixinha, quase inaudível, uma voz que repetia, incessantemente, “Pamonhas, pamonhas de Piracicaba.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os funcionários do Odeon Palace Hotel já desistiram de pedir &lt;i&gt;baqshish&lt;/i&gt; e olham para mim com uma certa tristeza. Wael, o recepcionista da tarde, interrompe as aulas de árabe que está dando a um amigo grego em pleno saguão e me vê passar, cabisbaixo, os olhos inundados d’além mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não tem idéia de como uma picanha faz falta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Wael é um dos caras legais que conheci, assim como o Dr Samir e seu amigo Emil, o joalheiro, ou o Amr, garçom do Café Cilantro e candidato a escritor. Até mesmo marquei de sair com Amr e seus companheiros, autores da novíssima geração egípcia de escritores. O Cilantro é um café bacana diante da The American University in Cairo, a universidade dos ricos locais e estrangeiros fundada em 1919 e que ocupa um prédio em estilo neo-islâmico na Midan Tahrir. Dentro do campus (uma aprazível &lt;i&gt;villa&lt;/i&gt; com jardins e palmeiras onde se escarrapicham bem fornidos jovens representantes do neo-imperialismo atual) existe uma senhora livraria, onde me escondo de vez em quando da infinita algazarra (palavra muito apropriadamente vinda do árabe) das ruas poluídas do Cairo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro cara bacana que encontrei dia desses foi um farmacêutico que nem ao menos arranhava grotescamente o inglês, feito eu. Ele tomava uma limonada sentado na grade do metrô da Estação Nasser, quando lhe perguntei a direção de Zamalek. Para chegar a esse verdejante bairro que fica na ilha de Gezira bem no meio do Nilo é necessário atravessar uma ponte, obviamente. Eu já tinha ido a Zamalek diversas vezes (é o posto avançado dos tempos em que os ingleses cagavam regras por aqui e onde cresceu, nos anos 1940, o intelectual palestino Edward Said), mas estava perdido noutra parte da cidade e no meio da balbúrdia (será que “balbúrdia” também vem do árabe?).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rapaz limpou os beiços e me acompanhou, feliz em poder ajudar. Nos quase quarenta minutos de caminhada, foi mostrando um &lt;i&gt;souq&lt;/i&gt; chamado Balouc nos becos estreitos de uma favela sob a ponte 26 de Julho, com pessoas vendendo roupas coloridíssimas em ruas totalmente enlameadas, &lt;i&gt;ahwas&lt;/i&gt; lotados de velhos e moços pipando seus &lt;i&gt;shishas&lt;/i&gt; e cordeiros inteiros pendendo dos ganchos nas calçadas diante dos açougues. No final do trajeto, descobri que meu novo amigo era farmacêutico e estava indo para o trabalho em Zamalek (ele mostrou seu cartão, apontando a serpente de Esculápio. Depois disse em francês “pharmacie”).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até então parecíamos apenas dois mímicos fracassados em nossa tentativa inábil de descrever este trecho sujo da cidade. Deixei-o, agradecido, em frente ao Marriott Hotel, que hoje ocupa um palácio feito em 1869 pelo Khedive Ismail para os festejos de inauguração do Canal de Suez (ai!) naquele mesmo ano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há outra coisa a unir meus amigos Wael, Dr Samir, o joalheiro Emil, o garçom-escritor Amr, o farmacêutico andarilho anônimo e até mesmo o nobre Khedive Ismail, além do fato de serem egípcios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles não têm a menor idéia de como uma picanha faz falta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os egípcios comem em média 24kg de carne por ano, ou seja, míseras 6 gramas diárias, o que deve equivaler mais ou menos àqueles pedacinhos de carne moída que despencam do kibe no prato quando você está em seu restaurante libanês predileto aí no Brasil (o meu é o Cedro do Líbano, na Rua Pamplona em frente ao Carrefour, mas também gosto muito do Jahber da Mourato Coelho, ambos em São Paulo. E aprecio igualmente aqueles árabes do Largo do Machado, no Rio).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O modo como a culinária egípcia utiliza a carne já é indicativo da rareza da iguaria. Koftas e kibes usam carne moída (geralmente de cordeiro ou de frango) misturada com farinha de trigo. Kebab são pequenos (minúsculos, de acordo com minha aptidão carnívora) nacos de carne de cordeiro ou de veado. Há outras aves, codornas e pombos, que são servidas recheadas com arroz, amêndoas e grãos, mas ainda não criei coragem para isso. Pombos? Nãnãnã (curiosidade: “nãnãnã” é como se diz em árabe “simsimsim”, o que pode significar que eles – ou seríamos nós? – são totalmente loucos). Além disto, patos e gansos são caros demais para o meu bolso lotado de piastras (os centavos egípcios). Nãnãnã (em árabe se diz “lálálá”, assim mesmo, cantarolando, quer dizer “nãonãonão”. É incrível como eles nunca afirmam “sim” ou “não” uma única vez. É sempre “lálálá” ou “nãnãnã”. Ênfase é o segredo do negócio)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cansado do racionamento de carne e do calor do deserto, resolvi pegar um trem no final de semana passado e ir até Alexandria comer peixe e em busca dos ventos mediterrâneos e dos rastros de Konstantinos Kavafis, E.M. Foster e Lawrence Durrell. Mas isso é assunto para um outro post.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E que falta faz uma picanha.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3695782829192788861-3880286335400805469?l=blogdojocaterron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/3880286335400805469'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/3880286335400805469'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdojocaterron.blogspot.com/2007/05/gros-de-bicos.html' title='GRÃOS-DE-BICO'/><author><name>blog do joca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06215457349160002805</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3695782829192788861.post-2726769400285977483</id><published>2007-05-29T10:37:00.001-07:00</published><updated>2007-05-31T13:43:25.647-07:00</updated><title type='text'>LENTILHAS</title><content type='html'>Há diversas fontes conflitantes sobre a população da cidade do Cairo, apesar de o IBGE deles, o CAPMAS, estar preparando novo censo a ser divulgado ainda em 2007. De acordo com as primeiras informações extra-oficiais (a fonte é a revista mensal &lt;a href="http://www.egyptoday.com/"&gt;Egypt Today&lt;/a&gt;), os cairotas são em torno de 20 milhões (sendo que a população do país é de 76.486,426 milhões de pessoas).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse número não é suficiente para dar ao Cairo o cetro de cidade mais populosa do planeta, mas assegura sua posição de primeira do ranking de maior densidade demográfica, com áreas habitadas por 2.000 pessoas por hectare, ou seja, com meros 5 metros quadrados ocupados por cada cidadão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Some esses índices aos alarmantes níveis de poluição, acrescente áreas totalmente desprovidas de quaisquer indícios de vegetação, tempere com a areia do Saara que inunda a cidade nas tempestades anuais chamadas de &lt;i&gt;Khamasin&lt;/i&gt; (“As Cinquentas” em árabe, assim chamadas porque ocorrem 50 dias antes da Páscoa copta -- na mais poderosa delas, registrada em 2004, os ventos eram de 80 km/h, e deixou 33 mortos), ferva a 40 graus celsius (média da temperatura neste início de verão) e pronto: o caos é dono e senhor deste lugar chamado Entropia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O prefeito de São Paulo Gilberto Kassab e sua usina de idéias brilhantes deveria criar um sistema de teletransporte que fosse acionado a cada vez que um paulistano dissesse ou pensasse “Não aguento mais o caos desta cidade”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No preciso momento em que essa frase transtornada varasse o cérebro do paulistano de saco cheio e ensardinhado num vagão de metrô na hora do rush, ele seria imediatamente teletransportado para uma rua de Khan Al-Khalili, onde a mera menção à palavra “espaço” não tem lugar, e a sensação “espacial” é precisamente a de estar dentro de um vagão do metrô em São Paulo na hora do rush, com a diferença (que deve ser levada em consideração) que o seu pé estaria enfiado numa fossa estourada e que você seria obrigado a dividir seu quinhãozinho com jegues, pombos, cavalos, cabritos, táxis, ratos, egípcios e, &lt;i&gt;last but not least&lt;/i&gt;, japoneses (bem, nós também temos japoneses no metrô de SP).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de meia hora curtindo os olhares hospitaleiros dos fundamentalistas muçulmanos de Khan Al-Khalili (que murmurarão em seu ouvido frases indecifráveis em árabe provavelmente significando “Adoro explodir infiéis”) e mais apto para rever seus conceitos, o sabatinado paulistano seria devolvido ao vagão em pleno horário das 19h da Operação Tartaruga do metrô.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A questão da arborização da cidade (o problema aqui no deserto não é desmatamento, como vocês podem prever) é ainda mais atroz. Há diversas opiniões a respeito da total desimportância que o cidadão do Cairo atribui aos espaços verdes, algumas delas cheirando até mesmo a psicologização barata, como a da “cairóloga” Maria Golia, autora do interessantíssimo, apesar de certas teorizações furadas, “Cairo, City of Sand” (The American University in Cairo Press, Cairo, 2004). Golia defende que o cairota abomina qualquer coisa que o faça lembrar de seu passado rural ainda tão próximo, e isto incluiria as preocupações paisagísticas com o espaço urbano da cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho minhas dúvidas quanto à boa procedência desse raciocínio, pois a alma rural do povo egípcio me parece totalmente viva e pulsante onde quer que se olhe: no sem número de carroças puxadas por jumentos e cavalos transportando hortaliças, legumes e carne pra lá e pra cá (uma visão impensável em boa parte das capitais brasileiras). Um exemplo: dia desses entrei num beco cercado de prédios em ruínas próximo à Midan Tahrir, o coração do Cairo urbano, e lá estavam dois pastores com suas quinze ou mais cabras. Pareciam exilados do bucolismo, os pobres pastores e suas cabras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho para comigo que a total falta de preocupação com o destino desta cidade e das pessoas que a habitam só tem uma razão: desgoverno. A situação é de tal maneira drástica que nem posso cogitar incompetência administrativa. O Caos, quer dizer, o Cairo está desgovernado desde 1981, quando Hosni Mubarak chegou ao poder. Ou seria desde 712 AC, quando a era faraônica começou a definhar? Cartas para a redação (jterron@gmail.com).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cansados de tentar plantar em vão no deserto, os cairotas inventaram os “chapéus de palmeira plástica” para revolucionar conceitos no paisagismo mundial. Explico melhor: são parafernálias feitas de plástico imitando as palmas superiores de uma palmeira e que são instaladas nos topos de postes dos bairros de subúrbio. À noite, quando os postes são acesos, as palmeiras plásticas brilham qual néon nas cores laranja, púrpura e – por que não? – verde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, Kassab, nem ouse pensar nisso!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3695782829192788861-2726769400285977483?l=blogdojocaterron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/2726769400285977483'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/2726769400285977483'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdojocaterron.blogspot.com/2007/05/lentilhas.html' title='LENTILHAS'/><author><name>blog do joca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06215457349160002805</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3695782829192788861.post-1123484758261158181</id><published>2007-05-29T06:12:00.000-07:00</published><updated>2007-05-31T13:41:26.574-07:00</updated><title type='text'>FAVAS</title><content type='html'>O prato típico do Egito de que mais gostei até agora é o &lt;i&gt;fuul&lt;/i&gt;, que é a palavra árabe para fava. Os egípcios comem favas de tudo quanto é jeito, como &lt;i&gt;mezzes&lt;/i&gt; (aperitivos), em sanduíches feitos com &lt;i&gt;taamiyya&lt;/i&gt; (o falafel daqui, que são bolos feitos de favas amassadas temperados com ervas diversas e fritos) ou cozidos simplesmente com tomates e cebolas e temperados com pimenta síria, cominho, sal e limão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta última é a forma que são servidas as porções de favas no Cape D’Or, o melhor boteco daqui do centro do Cairo. Eu sou particularmente fascinado por botecos da Belle Époque, aqueles bares com jeitão de cafés, tetos altíssimos e belos móveis antigos. A frequência do Cape D’Or (que fica na Sharia Abdel Khalek Sarwat, quase na Talaat Harb) hoje em dia não tem mais a mesma exuberância de seus primórdios no início do século XX, mas ainda tem lá seus atrativos. Um deles são as &lt;i&gt;mezzes&lt;/i&gt; servidas gratuitamente a cada Stella solicitada, basicamente porções de tomates, rúculas, queijo (um queijo fresco local chamado &lt;i&gt;domiati&lt;/i&gt; cujo sabor lembra um pouco o da ricota), tremoços e favas. As favas do Cape D’Or são particularmente deliciosas e, se você beber algumas Stellas, sairá do bar sem a necessidade de jantar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A forma mais deliciosa do &lt;i&gt;fuul&lt;/i&gt; até agora, porém, é a servida no restaurante Abou-el-Said (ou el-Seid ou mesmo el-Sid, pois já vi essas três grafias por aí). Amassado e misturado com azeite, alho e limão (assim como o &lt;i&gt;babhaganush&lt;/i&gt; e o &lt;i&gt;hummus&lt;/i&gt;) e temperado com cebolas e &lt;i&gt;bell pepper&lt;/i&gt; (uma pimenta vermelha cujo nome árabe ainda não entendi e de sabor desconhecido para mim), é uma iguaria inigualável. Basta ir beliscando a pasta com pedacinhos de pão sírio torrado ou com &lt;i&gt;taamiyya&lt;/i&gt; e seu lugar no paraíso está garantido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dia desses mantive uma longa e agradável conversa no Cape D’Or com o dr Samir, uma rara exceção à simpatia interesseira da maioria dos cairotas. Pediatra, o senhor gordinho e calvo trabalhou por 3 anos em Trinidad-Tobago e estava acompanhado de seus amigos Emil, um joalheiro velhinho que tem loja no &lt;i&gt;souq&lt;/i&gt; (mercado) de Khan Al-Khalili, o enclave medieval no centro do Cairo islâmico (o termo é impreciso, já que todo o Cairo é islâmico), e outro cujo nome não registrei e que generosamente me entupiu de alguns Belmont, o melhor cigarro egípcio. Dr Samir e os amigos se encontram todas as quartas no Cape D’Or para tomar algumas geladas e colocar a prosa em dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os três convivas do Cape D’Or são coptas, a variação cristã ortodoxa encontrada no Cairo. Em diversas ocasiões da conversa e depois de saber que eu vinha de família católica, pude perceber algumas ironias do dr Samir endereçadas aos muçulmanos. As diferenças religiosas aqui não são brincadeira e, cerca de um mês atrás, houve um confronto entre as duas facções que deixou dezenas de pessoas com ferimentos graves. O quebra-quebra foi iniciado pelos muçulmanos, que acusavam os coptas de terem iniciado a construção de uma igreja em terreno sagrado do Islam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar da presença copta disseminada na cidade, muito além dos limites do bairro copta demarcados pelas muralhas da antiga Babilônia (uma área com a mesma idade e aparência semelhante a dos bairros antigos de Jerusalém), fundada pelos romanos 3 séculos DC, o Cairo é predominantemente muçulmano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na cidade existem 10 mil mesquitas em atividade, além de dezenas de milhares de &lt;i&gt;zawayas&lt;/i&gt;, cantos de oração com capacidade de reunir centenas de fiéis. O problema é que cada uma dessas mesquitas e dessas &lt;i&gt;zawayas&lt;/i&gt; é equipada com equipamentos de som altíssimos. Esses equipamentos são acionados 5 vezes ao dia com chamados à oração, (5 é o número de vezes que os muçulmanos rezam, começando ao raiar do dia -- às 4h30 da matina -- e culminando à noite, em torno das 21h30). Nesses horários, um &lt;i&gt;muezzin&lt;/i&gt; em cada mesquita e cada &lt;i&gt;zawaya&lt;/i&gt; canta trechos do Alcorão em altos brados hiper-amplificados que terminam por cobrir toda a cidade. Se eu consigo dormir? E você acha que alguém dorme no Cairo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A devoção religiosa do povo egípcio pode ser verificada pelo número impressionante de homens com calos escuros no meio de suas testas. Esses calos indicam o grau de fervor religioso de seus dono e quanto tempo de suas vidas eles dedicam a rezar de joelhos, com suas testas apoiadas no chão geralmente coberto por tapetes. E os muçulmanos rezam em qualquer lugar, no meio da multidão em movimento ou mesmo dentro do cybercafé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta cidade de 1400 anos chamada Al Qahihra é mesmo um espetáculo de fé e persistência, e a forma com que ainda existe, equilibrando-se entre o deserto e a pujança do Nilo, entre a absoluta miséria de seu presente e a riqueza do passado faraônico, é apenas mais uma constatação da inquestionável vitória do absurdo sobre a realidade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3695782829192788861-1123484758261158181?l=blogdojocaterron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/1123484758261158181'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/1123484758261158181'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdojocaterron.blogspot.com/2007/05/favas.html' title='FAVAS'/><author><name>blog do joca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06215457349160002805</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3695782829192788861.post-1271014103832056614</id><published>2007-05-28T07:47:00.000-07:00</published><updated>2007-05-31T13:49:01.135-07:00</updated><title type='text'>GERGELINS</title><content type='html'>Os cairotas pertencem àquela faixa um tanto obscura e indefinida das categorias humanas que fica entre a simpatia e a mais intransigente malice sem alça. São as pessoas mais grudentas que já tive a infelicidade de suportar, e nesse quesito talvez ganhem até mesmo dos brasileiros. Eu disse “talvez”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os mais malas entre os malas são os malandros que trabalham com turismo no centro da cidade. Eles ficam zanzando pelas ruas à procura de gringos e então colam nas pessoas, seguindo-as até que consigam arrastá-las para uma de suas “agências”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O método de abordagem desses infelizes pode ser reconhecido pelo indefectível “Where are you from?” A única forma de se livrar de tanta simpatia e diligência é ignorá-las pura e simplesmente. Dia desses tive um diálogo interessante com um gordo que me seguia fazia horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O gordo foi chegando e segurou em meu cotovelo, dizendo: “Hello. Where are you from?”, pergunta que respondi com um seco “Thank you.” O gordo então emendou “Oh, que interessante, então você vem de um país chamado Thank You.” Eu olhei pra ele e disse “Sim, cuja capital se chama No Thanks.” O olhar do gordo então se iluminou e ele afinal parou de me seguir. Quando olhei para trás, ele estava parado na calçada e repetia incessantemente: “Muito boa. Essa foi muito boa...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cerca de 25% da economia baleada do Egito é proveniente do turismo, daí o contingente gigantesco de pessoas espalhado pelas ruas do Cairo, procurando desesperadamente sobreviver de golpes e pequenas mutretas. Nas redondezas de qualquer sítio histórico é possível encontrar batalhões delas, o que acaba transformando qualquer visita a um lugar desses num tremendo pé no saco. É necessário negociar absolutamente tudo, desde o preço de uma garrafa d’água até uma corrida de táxi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os táxis egípcios não usam taxímetro e o preço tem de ser combinado antes de se entrar no carro. “Funciona” mais ou menos assim: o taxista pára (não há necessidade de fazer sinal, pois ao caminhar na calçada você será abordado o tempo todo – às vezes podem até mesmo te seguir – ou quase será atropelado por eles) e do lado de fora você diz o bairro ou a rua que gostaria de ir e pergunta o preço. Daí começa uma árdua negociação, iniciada invariavelmente por ele, que vai propor um preço abusivo que será negado por você. Se o taxista se mostrar irredutível, é só dar as costas e ir embora. Em geral, o táxi aparecerá novamente ao seu lado um minuto depois, quando o taxista perguntará quanto você quer pagar. E então o negócio é chutar um preço razoável e entrar no carro fedorento, quase 10 minutos depois de o processo ter se iniciado. Vale lembrar que nem sempre o taxista fala inglês. Uma diversão. Que saudades do Ney.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os taxistas também têm o péssimo hábito de “sequestrar”os passageiros gringos, fazendo um caminho alternativo que passe por lugares importantes. Nessas horas eles incorporam o guia turístico e tentam explicar os monumentos (às vezes apelando para a mímica, o que pode ser particularmente desastroso numa cidade com o trânsito do Cairo), pretendendo com isto cobrar pelo “tour”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caso de o taxista ficar insatisfeito com o preço acordado, ele também poderá parar e recolher novos passageiros que estejam indo para o mesmo destino que você. Ou seja: o risco de seu sensível narizinho terminar debaixo das axilas fedorentas da &lt;i&gt;gabbeyya&lt;/i&gt; de um muçulmano de 200 kilos é bastante grande.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema maior dos táxis no Cairo nem mesmo é o preço, muitíssimo mais barato do que em São Paulo, por exemplo, onde táxi é um serviço caríssimo. Dia desses aluguei um deles para um passeio de cerca de 7 horas (um carro bacana, com ar-condicionado e tudo, e um motorista mala sem alça como todos os outros – falo mais dessa viagem depois) para ver as pirâmides de Gizah, Saqqara e Memphis (Saqqara fica a quase 30km do centro do Cairo) por 120 libras egípcias, o que deve dar em torno de R$43.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grande problema do Cairo é que todo mundo, desde taxistas e garçons até funcionários de hotel e mendigos, quer enganar estrangeiros durante o tempo todo. E isso cansa qualquer candidato a otário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Existem mais de 20 milhões de carros circulando no Egito. Esse número aliado à total loucura rodoviária dos cairotas resultou no trânsito mais caótico do mundo. Uma gigantesca frota de renaults e fiats 147 caindo aos pedaços circula do raiar do dia até a noite, varando a madrugada com suas buzinadas estridentes. Os motoristas cairotas não respeitam nenhum sinal de trânsito e muito menos os policiais, que nos horários de picos procuram (ainda não estou certo se eles “procuram” fazer alguma coisa) organizar os cruzamentos. Para atravessar a rua, os pedestres não têm outra saída senão se aventurar no meio do tráfego de maneira absolutamente suicida. Ver um cairota atravessando o tráfego de uma grande avenida na hora do rush é mais emocionante do que final de campeonato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma das provas irrefutáveis de que o povo egípcio é completamente insano está na Midan Ramsés. É lá, no centro dessa pequena rotatória próxima à estação ferroviária central contornada por gigantescos minhocões unindo os subúrbios ao centro da cidade, que está um monolito representando Ramsés II*. A estátua de 90 toneladas foi trazida em 1955 de seu lugar de origem, o Templo de Ptah em Memphis, onde ficou por mais de 3000 anos, por ordem do presidente Gamal Abdel Nasser. E hoje o pobre Ramsés II é obrigado todo santo dia a testemunhar a barulhenta faina humana dos congestionamentos, sentindo dia a dia sua carne feita de rocha ser consumida pela poluição e pelo monóxido de carbono. É um verdadeiro crime de lesa-humanidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;*Não está mais. Parece que caiu a ficha e recolheram o pobre Ramsés II para ser restaurado. Parece que em seu lugar colocarão uma réplica. Eu, porém, suspeito que tal sumiço deve ser obra da ardilosa espiã francesa, a Egípcia do Crato...&lt;/i&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3695782829192788861-1271014103832056614?l=blogdojocaterron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/1271014103832056614'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/1271014103832056614'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdojocaterron.blogspot.com/2007/05/gergelins.html' title='GERGELINS'/><author><name>blog do joca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06215457349160002805</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3695782829192788861.post-9098821875192891034</id><published>2007-05-25T09:31:00.000-07:00</published><updated>2007-05-31T13:29:32.589-07:00</updated><title type='text'>A MALDIÇÃO DO COSMOPOLITAN HOTEL III</title><content type='html'>Na manhã seguinte, após as aulas de hipnologia que tenho tomado com o eminente professor Emil Kamel no campus da American University in Cairo situado na Sharia Mohammed Mahmoud, aproveitei o fato de estar na vizinhança e entrei no Egyptian Museum. Eu estava em busca de ser possuído por alguma entidade do Egito Antigo que me ditasse um livro, assim como aconteceu com Aleister Crowley. Ao contrário do “The Book of Law” resultante da sessão espírita ocorrida com o bruxo inglês, porém, eu precisava que a tal entidade me desse uma mãozinha e ditasse uma história de amor. Quem sabe Hathor, a deusa do amor e do prazer representada por uma simpática vaquinha, não me auxiliasse nesta empreitada? Afinal, &lt;i&gt;mugi&lt;/i&gt;r de amor deve ser muito melhor do que &lt;i&gt;morrer&lt;/i&gt; de amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram tamanhas, as promessas que os 120 mil itens de egiptologia catalogados e escondidos sob o teto daquele enorme prédio cor de camelo quando foge, que até mesmo desapareceram as dores que meu Canal de Suez particular tem causado. A dor de dente passou, e então começaram as dores de cabeça para entrar no museu, que devem ser parecidas com dores do parto às avessas. Primeiro, um detector de metais. Depois, uma revista completa da mochila. E então, o raio-X. Somente nesse ponto descubro que terei de voltar ao jardim externo do museu para depositar câmeras de fotografia e de vídeo num guichê altamente suspeito. Uma dona gorda e simpática (aqui não tem esse negócio de anorexia, as gordinhas é que fazem sucesso) me deu um papelzinho encardido com um número em árabe em troca da moderna handycam que a produtora malvada me obriga a carregar pra lá e pra cá. Minha paranóia sambou: eu podia confiar na egípcia gordinha e simpática ou ela seria uma mirisolette disfarçada? Resolvi confiar. Eu não tinha mesmo outra saída para entrar no prédio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após os guardinhas de uniformes branco-encardidos bagunçarem novamente minha mochila, consigo entrar no museu. Logo de cara, no fundo do átrio, duas gigantescas estátuas representando o faraó Amenhotep III e sua mulher Tiy me dão boas vindas (“Welcome”, eles dizem em uníssono.) Considerei bom augúrio ser recebido por um casal cujo casamento esteja durando tanto tempo. Afinal Amenhotep e Tiy estão juntos desde 1390 AC. Isso sim é que é felicidade conjugal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de conferir a Paleta de Narmer (o faraó também conhecido por Menés e que unificou o Alto e o Baixo Egito, iniciando as dinastias faraônicas que duraram 3000 anos), subo correndo ao segundo piso para ver as salas dedicadas a Tutankhamon. Quando garoto eu era fascinado com a história do arqueólogo inglês Howard Carter e a de seu benfeitor, Lord Carnarvon. A maldição de Tuthankamon parece ser mais poderosa do que a maldição das mirisolettes, pois reza a lenda que todos os envolvidos na abertura da câmara do faraó em Luxor morreram nos anos seguintes à descoberta. Suspeita-se que a câmara fora envenenada para afugentar saqueadores de tumbas. Pus-me a pensar: será que o faraó com sua sabedoria divina poderia confundir aqueles nobres e bem intencionados colonizadores e arqueólogos com meros saqueadores de tumbas? Bem, basta conferir os tesouros egípcios no British Museum e no Louvre para perceber que Tutankhamon, apesar de jovenzinho, sabia das coisas. Uma breve anedota ilustrativa sobre o assunto e sobre o jeitinho egípcio de ser: em troca do portentoso e incalculável obelisco do período faraônico que enfeita a Place de la Concorde em Paris, o rei francês Louis-Philippe enviou em um relógio para ornamentar a entrada da mesquita de Muhammed Ali, no Cairo. O relógio quebrou durante a viagem e até hoje não foi consertado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi nesse instante que me lembrei da intrigante presença na cidade da Egípcia do Crato, espiã, ladra e &lt;i&gt;femme fatale&lt;/i&gt; juramentada. Eu sabia que a esculhambação característica dos egípcios é também responsável por outra grande piada: armazenados no porão do museu estão 150 mil peças valiosíssimas que nunca foram catalogadas ou exibidas. Há anos o presidente Hosni Mubarak vem planejando a construção de um museu definitivo nas imediações das pirâmides de Gizah que abrigue esses itens, mas essa parece ser outra brincadeira. Estaria a Egípcia do Crato em busca de novas riquezas da era dinástica para enfeitar algum museu do Primeiro Mundo, enquanto Mubarak cochila seu sono de beleza no Palácio Uruba? Era o que eu procuraria descobrir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante da célebre máscara mortuária do faraó falecido precocemente (aquela que estampa capas de livros de história no período escolar), eu me perguntava onde tudo isto vai dar. Mas Tutankhamon continuou em seu silêncio de ouro e nada respondeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[ TO BE CONTINUED / A SUIVRE ]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3695782829192788861-9098821875192891034?l=blogdojocaterron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/9098821875192891034'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/9098821875192891034'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdojocaterron.blogspot.com/2007/05/maldio-do-cosmopolitan-hotel-iii.html' title='A MALDIÇÃO DO COSMOPOLITAN HOTEL III'/><author><name>blog do joca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06215457349160002805</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3695782829192788861.post-8221024590985870986</id><published>2007-05-20T05:44:00.000-07:00</published><updated>2007-05-21T05:45:35.156-07:00</updated><title type='text'>A MALDIÇÃO DO COSMOPOLITAN HOTEL II</title><content type='html'>Como eu dizia, há uma evidente contrariedade entre a ruína externa e os faustos interiores dos prédios do Cairo. Sob essa ótica, o Cosmopolitan parece ser uma exceção, pois sua fachada magnífica esconde um interior totalmente deteriorado, com quartos imundos e banheiros assombrados pelo fantasma da hepatite. Pelo que compreendi, o prédio foi tomado pelos funcionários, que moram no hotel. Os gerentes e recepcionistas se revezam em seus papéis, causando tal confusão nos hóspedes (que combinam algo com um deles – o preço de uma diária, por exemplo – somente para depois ver o acerto desfeito pelo outro, pelo dublê ou sósia de gerente do momento). Como num filme de Kubrick, pelos corredores do hotel é possível ver crianças fazendo suas lições de casa em qualquer hora do dia ou da noite. Por outro lado, é simplesmente impossível localizar uma camareira e a coisa mais assemelhada a um aspirador de pó é o sistema de ar-condicionado central.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A situação era de tal maneira periclitante que eu esquecera completamente os leitores do Todo Prosa, a revista Veja, Reinaldo Aze(ve)do ou Mirisola &amp; suas mirisolettes. Para falar a verdade, ao ver todas aquelas pessoas miseráveis dormitando pelos cantos das ruínas do Cosmopolitan Hotel, a única coisa que eu lembrava era do crítico e ganhador do Telecom Ricardo Lísias dizendo na Folha de S.Paulo que o projeto Amores Expressos não estava mandando ninguém para “a África negra” ou algo assim. Conferi no mapa e vi que o Egito e toda a sua maldição de faraós galopantes continuava no mesmo lugar, no oeste da África. Confesso que fiquei aliviado. Mas não muito. Eu continuava a existir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse exato instante o Canal de Suez em meu molar superior esquerdo me sinalizou que permanecia aberto e em plena atividade. Mandei para dentro uma cápsula de Tramal 50, o analgésico opióide receitado por meu dentista, Dr William B. e, totalmente insone, desci ao Kings Bar para mais algumas Stellas em total discordância com suas recomendações a respeito de misturar morfina com álcool. Afogado na fumaça dos cigarros baratos fumados pelos boêmios egípcios, saí delirando pelos corredores do hotel até inadvertidamente ir parar diante da porta do apartamento número 666. Foi somente então que me lembrei: entre tantos hóspedes famosos no passado, o Cosmopolitan também recebera o mago inglês Aleister Crowley, a auto-denominada Besta do Apocalipse. Babujando palavras incompreensíveis em árabe aprendidas com meu taxista predileto (shukran: “obrigado”; aasif: “desculpe”), desci à portaria e um dos duzentos ou trezentos gerentes do hotel me confirmou: era mesmo verdade que Crowley ali estivera nos anos 40. “Foi aqui no Cosmopolitan que ele escreveu ‘The Book of Law’, sir, segundo consta ditado por uma entidade maligna que o possuiu durante uma vista ao Egyptian Museum”, o gerente falou. Tremi na base. Nessa hora uma ventania danada fez rodar com violência a porta giratória do hotel e tive a impressão de ver sair por ela o vulto de uma antiga inimiga, a Egípcia do Crato. Seria mesmo ela? O que estaria fazendo no Cairo fora da temporada de espionagens? Resolvi, incontinenti, segui-la pelas ruas vazias espanadas pelo vento do Saara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A silhueta delgada da misteriosa Egípcia do Crato movia-se mais rapidamente do que O Sombra, descendo veloz a Sharia Tahrir em direção à Corniche El-Nil, às vezes desaparecendo em meio às golfadas de areia e à nuvem de poluição noturna e surgindo de repente, até ser engolida de vez pela boca enevoada da entrada do Nightclub Scherazade. E  então, de súbito, não mais a vi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma ratazana saída de uma fresta do Cine Odeon galopava através da cinzenta Sharia Abdel Hamid Said, enquanto gatos aguardavam, mimetizados nas sombras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[ TO BE CONTINUED / A SUIVRE ]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3695782829192788861-8221024590985870986?l=blogdojocaterron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/8221024590985870986'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/8221024590985870986'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdojocaterron.blogspot.com/2007/05/maldio-do-cosmopolitan-hotel-ii.html' title='A MALDIÇÃO DO COSMOPOLITAN HOTEL II'/><author><name>blog do joca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06215457349160002805</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3695782829192788861.post-824734939016343877</id><published>2007-05-19T05:43:00.000-07:00</published><updated>2007-05-21T05:44:11.815-07:00</updated><title type='text'>A MALDIÇÃO DO COSMOPOLITAN HOTEL I</title><content type='html'>O Cosmopolitan é um hotel fundado em 1928 com endereço no centro do Cairo, região que viu seu auge na virada do século XIX para o século XX. Concentrado em torno à Midan Talaat Harb, esse pedaço da cidade está cheio de prédios art nouveau que nem de longe lembram os postais do tempo em que a Sharia Qasr-El-Nil era comandada pelo ainda imponente edifício da Bolsa de Valores, atualmente desativado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escondido numa viela e alheio ao rebuliço dos vendedores nas lojas, o Cosmopolitan Hotel está adormecido, sonhando com o passado glorioso. Seu frontão é formidável, com sacadas dando para um tranquilo passeio do centro onde vigora um ahwa (os cafés populares egípcios, frequentados essencialmente por homens que neles matam o tempo bebendo chás e fumando shishas, como é chamado o narguilé aqui) e dominado pela impressionante escadaria culminando em uma porta giratória daquelas que podem nos transportar no tempo: basta perder-se circularmente nelas e terminamos, meio tontos, dando de frente com a Belle Époque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sob o gigantesco lustre com milhares de lâmpadas acesas, não consigo ter nem uma mísera idéia a respeito do que pode ter dado errado na trajetória do Cosmopolitan. Observo o remendo grosseiro no uniforme puído do sujeito de noventa anos que carrega a minha bagagem no velhíssimo elevador com estrutura de ferro escuro e vidros decorados por iluminuras art nouveau. Noto quando sorri seus dentes apodrecidos, seus dedos imundos dos pés enfiados nas sandálias gastas. Vejo a palma de sua mão estendida em minha direção, implorando por bakshish. Enquanto saco algumas piastras de meu bolso furado, me antecipo (pois neste post estou apenas chegando ao Cairo e ao hotel e não tenho condições de refletir sobre o que ainda não vi) e começo então a refletir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma das peculiaridades do Cairo é o contraste que pode haver entre a realidade externa totalmente degradada das ruas e a realidade interna dos prédios igualmente arruinados, que às vezes escondem ambientes tão luxuosos a ponto de nos desconcertar. A paisagem urbana desta cidade de 16 milhões de habitantes é assolada pelo desemprego, pela miséria e pelo caos e parece ter sido bombardeada anteontem e sempre. Tudo é coberto por um ubíquo pó cinza, até mesmo a vegetação, e às vezes bate uma ventania de areia daquelas de fechar os olhos e se segurar no poste mais próximo. Esgotos abertos nas calçadas cheias de pedintes, restos de comida jogados pelas esquinas, cheiros para todos os olfatos. Você dá dois passos e sente vontade de vomitar com o cheiro de alguma coisa apodrecendo, dá mais dois passos e é tomado pelo odor delicioso de alguma comida sendo preparada. Os perfumes decadentes da maior metrópole africana definitivamente não são para os sensíveis. E, contrastatando com essa algazarra, há os interiores opulentos de alguns lugares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um deles é o restaurante Abou-El-Said, no bairro de Zamalek. Enfiado numa rua inundada pelo esgoto na margem leste do rio Nilo, ao lado da Sharia Brazil e detrás de uma gigantesca porta medieval de madeira, o Abou-El-Said parece um palácio oriental, com seus grossos tapetes e móveis de estilo beduíno semi-ocultos pelas luminárias à meia-luz projetando sombras e desenhos por todo o ambiente. Suas poltronas são baixas, assim como as mesas, e os convivas nelas se estendem saboreando shishas, vinhos e cervejas (foi onde provei pela primeira vez a principal cerveja local, Stella, fabricada pela Heineken, e também o lugar em que paguei mais caro por ela, cerca de 20 libras egípcias, ou R$7. O preço normal nos botecos é de 7 libras, mais ou menos R$2,45). Ao fundo, bem baixinho para não incomodar, canções de Omm Kolthun, a maior cantora egípcia de todos os tempos, e outros temas de música árabe. E uma miríade de cheiros no ar, dominado pelo perfume suave de chá de menta exalados pelos shishas. Provo alguns mezzes (aperitivos) para abrir o apetite: babaganush (pasta de berinjela, tahine, ervas e azeite) com pão sírio torradinho (ambos conhecemos bem), mais kofta (conhecida no Brasil como kafta) e kebab (nacos de carne de cordeiro grelhados), além de deliciosos charutos de uva recheados com arroz e lentilha. Depois peço o prato principal, koshari. Típico do Egito, é um macarrão de semolina temperado essencialmente com arroz, grão-de-bico torrado, lentilhas e tomates. Uma delícia vegetariana que pode dobrar até o mais ferrenho dos carnívoros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então, após a festa dos sentidos promovida todas as noites pelo Abou-El-Said, retorno à realidade das ruas arrebentadas desta cidade coalhada de gente. E, claro, à maldição do Hotel Cosmopolitan.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[ TO BE CONTINUED / A SUIVRE ]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3695782829192788861-824734939016343877?l=blogdojocaterron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/824734939016343877'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/824734939016343877'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdojocaterron.blogspot.com/2007/05/maldio-do-cosmopolitan-hotel-i.html' title='A MALDIÇÃO DO COSMOPOLITAN HOTEL I'/><author><name>blog do joca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06215457349160002805</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3695782829192788861.post-429720598191047464</id><published>2007-05-17T09:47:00.000-07:00</published><updated>2007-05-17T09:48:03.815-07:00</updated><title type='text'>SALLAM’ALAYKUM – A CHEGADA</title><content type='html'>O Aeroporto Internacional do Cairo se parece com qualquer outro aeroporto do mundo, daqueles em que os passageiros descem na pista para tomar um ônibus até o terminal. É apenas mais empoeirado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não se percebe nada de alienígena, até se entrar na fila da imigração e ver que a proporção de muçulmanos e beduínos vestidos em túnicas e usando turbantes e lenços aumenta cada vez mais e mais. Quando burocracia e desorganização principiam a tomar lugar e você vê na cabine 3 ou 4 sujeitos papeando como se não existisse uma fila com centenas de pessoas esperando por eles, pode ter certeza que você chegou a Al-Qaihrah, o nome árabe da cidade do Cairo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como o número de kalashnikovs à vista também aumenta em profusão, é aí que o visitante se lembra de que o Egito está sob uma ditadura há mais de 30 anos, e que a miséria e os níveis de desemprego têm feito a Irmandande Muçulmana (maior partido do país nos dias atuais, os fundamentalistas religiosos hoje dominam mais de 80% da bancada do parlamento, mesmo sendo um partido não reconhecido oficialmente) aumentar o cerco ao poder nas mãos do presidente Mubarak cada dia mais e mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não foi difícil também me lembrar de que os ataques terroristas no país têm aumentado muito (antes esporádicos, após o ataque em julho de 2005 a turistas em Sharm El-Sheik que matou 64 pessoas, eles se tornaram mais frequentes), e que a polícia é corrupta e mal equipada, frequentemente acusada de tortura e abusos de poder contra cidadãos egípcios. E não somente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi então que me lembrei dos leitores do TodoProsa, da revista Veja, do Reinaldo Aze(ve)do. Do Mirisola &amp; suas mirisolettes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas antes de enfrentar maldições &amp;amp; pragas, os terroristas ou até mesmo a polícia-montada em camelos de Mubarak, eu necessitaria sobrepujar a matilha de malandros que se dedicam a extorquir estrangeiros. Eles pululam por todo o Cairo, principalmente no centro por volta de Midan Talaat Harb, onde se encontram as agências turísticas, mas são particularmente abusados no aeroporto, que fica a 35 km da cidade e onde às 3h da manhã você inevitavelmente acaba refém de um desses caras. Para começar, eles cercam as pessoas de maneira totalmente agressiva e se a negociação for aberta pelo interlocutor, negando ou fazendo uma contra-proposta, você não mais conseguirá se desvencilhar deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como eu estava completamente exausto com as 48 horas de viagem e as mochilas nas costas, optei por negociar um carro com preço fixo. Eu sabia através dos guias que essa opção sairia um pouco mais cara, mas os carros eram mais confortáveis e não existiria a menor possibilidade de a viagem ser transformada numa lotação. É que no Cairo, os táxis podem parar para outros passageiros que estejam indo na mesma direção que você. Podem inclusive lotar o carro ao seu bel prazer. Os táxis no Egito têm tamanha particularidade que escreverei em ocasião futura com mais vagar sobre o assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que acertei um preço (o inicial era 85 pounds egípcios e caiu para 60 – cerca de 22 reais -- suponho que daria para regatear mais, porém meu saco já não parava em pé), um camarada arrancou o carrinho de bagagens de minha mão e saiu circulando feito louco pelo aeroporto falando em árabe ao celular. Após ele sair fora do saguão e voltar (já levava uns 8 minutos ou mais pilotando perigosamente minha bagagem, que ameaçou cair do carrinho mais de uma vez), consegui retomar o volante do carrinho e dei-lhe um ultimato: “Eu preciso desse táxi para hoje, amigo, e não para amanhã.” Nesse momento o malandro parou e sorriu pra mim. Daí ele desligou o celular e me conduziu até um carro no estacionamento, me deu um recibo, pediu um bakhshish (uma gorjeta) e finalmente tomei o rumo do hotel. No volante do táxi, um velhinho voava, enfiando o pé pelas avenidas de asfalto brilhante e liso dos subúrbios do Cairo, passando por Heliopolis (elegante bairro imitando Paris construído pelo Barão Edouard Empain nos anos 20), rumo à Sharia Qasr-El-Nil, ao Hotel Cosmopolitan e também a maldições ainda mais poderosas e inesperadas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3695782829192788861-429720598191047464?l=blogdojocaterron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/429720598191047464'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/429720598191047464'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdojocaterron.blogspot.com/2007/05/sallamalaykum-chegada.html' title='SALLAM’ALAYKUM – A CHEGADA'/><author><name>blog do joca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06215457349160002805</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3695782829192788861.post-4148850457305437422</id><published>2007-05-14T09:46:00.000-07:00</published><updated>2007-05-17T09:47:12.787-07:00</updated><title type='text'>OH, VIDA, OH AL-AZHAR*</title><content type='html'>Em Amsterdam chovia e fazia muito frio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ventava ainda por cima. Eu estava preparado para o frio, mas não para a chuva torrencial que despencava sobre aquela cidadezinha de bonecas. Não seriam pragas porém, àquela altura longínquas, que me impediriam de desvendar os becos e bravamente vencer as pontezinhas em arco de Amsterdam ou as ubíquas hordas de japinhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aterrissei às 11h da manhã no aeroporto de Schiphol após 11h30 de vôo tranquilo, atravessei o gigantesco shopping center que é aquele lugar e tomei o trem para a Centraal station. Eu ainda não sabia do pé d’água do lado de fora e tinha diante de mim quase 10 horas para afastar a ziquizira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E em Amsterdam chovia e fazia muito frio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de ensopar meu blazer e as barras das calças e após alguma relutância, comprei um guarda-chuva de 4 euros. A relutância se devia ao fato de que ele não seria muito útil em meu destino final, afinal não costuma chover muito no Saara ou no Sinai. O meu destino naquele momento, entretanto, não era o Saara ou muito menos ver in loco putas dançando nas vitrines (embora as tenha visto e quase chorado piedosamente por sua feiúra e tristeza rebolante), devorar um space cake ou queimar um marroquino golden ou fazer essas coisas que os turistas normalmente fazem em Amsterdam. O meu destino ficava bem entre a Prinsengracht e a Keizersgracht, no meio da Kerkstraat e se chama Lambiek Comics Shop, a livraria especializada em quadrinhos mais antiga do Velho Mundo, desde 1968 fazendo circular o que há de mais interessante no assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando digo que eles têm de tudo por lá, pode crer que é TUDO, até mesmo as edições de Lourenço Mutarelli ou de Fábio Moon &amp; Gabriel Bá publicadas pela Devir. Por falar nos gêmeos, a edição de “De:Tales” da Dark Horse era exibida com destaque, certamente devido à sua recente indicação ao Eisner Awards. E dá-lhe babar na estante dedicada às sensacionais e incompreensíveis edições da Oog &amp;amp; Blik, a editora criada pelo quadrinista holandês Jooste Swarte para publicar na Holanda tudo o que Drawn &amp; Quarterly e Fantagraphics publicam no Canadá e EUA, mais uma penca de coisas saídas da ativa produção local de quadrinhos, como as graphic novels expressionistas de Luc De Groot.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além de ser uma livraria com acervo tão grande e variado que exigiria mais horas do que eu dispunha para explorá-la, a Lambiek também é uma galeria de arte que comercializa originais e pôsteres em serigrafia numerados e assinados pelos maiores nomes dos quadrinhos atuais. As paredes da loja (que é dividida em duas alas, uma para a galeria e outra para a venda de álbuns) são cobertas por desenhos originais de Robert Crumb e outros luminares surgidos no underground da contra-cultura, mas hoje em dia centra fogo na divulgação dos novos mestres do comics alternativo, como Chris Ware, Daniel Clowes, Charles Burns, Gary Panter e Adrian Tomine. Uma serigrafia de Burns por 130 euros quase me fez cometer uma loucura no cartão de crédito. Respirei fundo, bisbilhotei pelas prateleiras de HQs alemãs, finlandesas e o escambau e terminei na estante da D&amp;amp;Q em busca de algo que conseguisse ler. Aquisições: “Monologues for the coming plague”, de Anders Nielsen, “Louis Riel”, de Chester Brown, “Ligne fragile”, de Lorenzo Mattotti e “King-Cat Classix”, antologia hardcover reunindo os 50 primeiros mini-gibis auto-publicados pelo norte-americano John Porcellino – uma jóia de simplicidade narrativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois dessa gloriosa experiência (que me fez pensar que as maldições haviam errado a mira), me enfurnei num pub para algumas Heinekens. E então o retorno à chuva e ao aeroporto de Schiphol. No trem, “esqueci” o guarda-chuva para que não aumentasse ainda mais minha bagagem de mão (os livros são pesados). Um senhor turco veio atrás de mim, perguntando se o guarda-chuva não era meu. Eu lhe disse que era sim, mas ele podia levá-lo, pois eu não precisaria de um guarda-chuva no deserto. O sujeito fez uma cara de cada-um-com-sua-loucura e deu no pé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois disso, algumas horas mais de atraso em Schiphol, além de outras Heinekens. Na hora de embarcar, uma chateação: na rigorosa revista da bagagem de mão, descobri -- para meu terror -- que recipientes contendo líquidos não podiam ultrapassar 250 ml. A funcionária árabe sorriu pra mim, e depois jogou meu tubo de 255 ml de esterilizador de lentes de contato no lixo. “Sorry”, ela disse. No mesmo instante iluminou-se com néon em minha cabeça o parágrafo do “Lonely Planet” dizendo que era praticamente impossível achar produtos para lentes de contato no Egito. A solução foi argumentar, pedir. Implorar. Chamaram o chefe, um holandês baixinho. Quando, ao retirar as minhas lentes, eu disse que aquilo seria um grande problema para mim pois eu era quase cego, o sujeito num passe de mágica devolveu o produto à minha mochila. Também existe um “jeitinho” holandês e eu não sabia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E afinal, às 3h30 da manhã e 48 horas depois de passar a chave na porta de casa, eu desembarcava no empoeirado aeroporto internacional do Cairo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Al-Azhar é uma das principais mesquitas do bairro islâmico do Cairo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3695782829192788861-4148850457305437422?l=blogdojocaterron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/4148850457305437422'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/4148850457305437422'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdojocaterron.blogspot.com/2007/05/oh-vida-oh-al-azhar.html' title='OH, VIDA, OH AL-AZHAR*'/><author><name>blog do joca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06215457349160002805</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3695782829192788861.post-852718785218267381</id><published>2007-05-12T09:45:00.000-07:00</published><updated>2007-05-17T09:45:54.286-07:00</updated><title type='text'>TINHA UM SUCESSOR DE PEDRO NO MEU CAMINHO</title><content type='html'>Tudo parecia conspirar contra minha saída de São Paulo, até mesmo o Papa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na véspera da viagem, imerso numa onda vultuosa de padres, seminaristas, noviças, freiras, oh quantas batinas na Dr Arnaldo (o cheiro de naftalina era tal a ponto de suplantar o já tradicional perfume de hambúrgueres das Clínicas, região outrora conhecida por um odor rastaquera de rosas colombianas comercializadas por ali nas imediações do cemitério do Araçá, mas oh, os paulistas superam tudo, o cheiro de morte que as rosas têm foi substituído com vantagens pelo cheiro de vida dos x-tudo, oh capriche no queijo, o meu quero mal passado, faz favor, semi-inconsciente, sivuplê), e todas em direção ao Pacaembu na busca de Vossa Santidade, que daria um show de bola às 18h daquele dia 10 de maio, justamente algumas horas antes de minha partida para o Cairo, bem no caminho entre a nobre produtora que bancaria os guinéus nessa parada e meu barraco no morro das Perdizes. Tinha um sucessor de Pedro no meu caminho, no meu caminho tinha um sucessor de Pedro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh, infâmia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Compromissos cumpridos (alguns sim, outros não) e a poucas horas do vôo, toco a voltar para a desarrumação de malas atrasada de casa. E então surgem eles, os beatos de Pindamonhangaba, as vestais de Caraguatatuba, os coroinhas de Turmalina, Ibiapina e toda a América Latina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca vi tanta batina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto sozinho eu nadava contra aquela correnteza de fé católica, minhas paranóias batucavam: primeiro foram os leitores do Todo Prosa, o Reinaldo Aze(ve)do e a revista Veja, agora são esses católicos tentando impedir minha adesão irrestrita ao Islam. Assim não dá!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas daí, para meu total êxtase, 12 horas após conseguir driblar os corolas &amp; as churumelas, surgiu Amsterdam no meu destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou na minha conexão para o Cairo, como preferirem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas antes da conexão em Amsterdam e de minha chegada ao Cairo, surgiu o Ney em minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Explico melhor: Ney é taxista.&lt;br /&gt;Depurando a explicação: Ney é taxista e faz ponto ao lado de casa. Nos conhecemos do dia-a-dia, do reboque das baladas, dos expedientes sudarentos, da faina inexorável de segunda-terça-quarta-quinta-e-sexta-feiras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre papeamos, eu e o Ney, o que eu ignorava completamente porém era que Ney falava árabe com fluência. “Além de inglês e japonês”, ele me informa. “Sempre quis viajar pelo mundo, mas daí apareceram a Elisete e os dois pimpolhos. As viagens ficaram na lembrança e no estudo das línguas”, ele diz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas idas e vindas na véspera de minha viagem, Ney me deu aulas gratuitas de árabe. “Ana bád uerrád bira”, ele me ensinou. Pronto, eu já sabia como pedir uma cerveja no Egito. “Ana ma’ endi massarín”, falou o Ney. Abracadabra: eu já sabia driblar os mendigos egípcios, dizendo que não tinha dinheiro. Combinei com meu amigo taxista de ele me levar ao aeroporto. E então, até chegarmos em Guarulhos, mais lições grátis. “Ana ma’ rrk árab”, aprendi. “Eu não sei falar árabe.” Talvez esta seja a frase mais útil que o Ney me ensinou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Figura curiosa, o Ney. Prometi levar uma lembrança pra ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois dias antes de Amsterdam, porém, e alguns dias após a macumba do Mirisola &amp;amp; suas mirisolettes, eu estava certo de que sucumbiria. Um canal maior que o de Suez estourou em meu molar superior esquerdo e achei que isso só podia ser sinal dos vingativos deuses egípcios que me aguardavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu dileto dentista Dr William B. me acalmou, entretanto, cimentando provisoriamente a enorme cratera e receitando Tramal 50, um poderoso analgésico à base de opiáceos. Dr William B. preocupou-se, quando eu lhe disse que a pena para o uso de drogas no Egito era morrer na forca. “Bem, seria uma forma meio drástica de combater essa dor de dente, caro Joca. Mas que resolveria seu problema, isso resolveria”, ele disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha paranóia tamborilou: eu estava liquidado. “Um homem esburacado destinado a uma cidade esburacada. Um homem arruinado rumo a uma cidade em ruínas: não tem jeito, as mirisolettes venceram”, pensei na hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas daí apareceu Amsterdam na janelinha do avião e tudo mudou.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3695782829192788861-852718785218267381?l=blogdojocaterron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/852718785218267381'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3695782829192788861/posts/default/852718785218267381'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdojocaterron.blogspot.com/2007/05/tinha-um-sucessor-de-pedro-no-meu.html' title='TINHA UM SUCESSOR DE PEDRO NO MEU CAMINHO'/><author><name>blog do joca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06215457349160002805</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry></feed>
